Um Único Desejo – Parte 2/2

Paulo Silva 03/21/2017

UM ÚNICO DESEJO

Parte 2 de 2

Por Matheus Olivaer

 

Hadalin engatinhou os últimos metros. Tomou a Lâmpada. Girou a base. Nada aconteceu. Os olhos esbugalharam em desespero. Mas, então, o objeto incandesceu e uma fumaça sobrenatural se elevou dele. A névoa se espalhou. Trovejou. Da neblina, dois pontos de luz vermelha se destacaram e lentamente se delinearam num contorno colossal humanoide. Hadalin tremeu. Sempre imaginou como seria invocar tal entidade, mas a presença que o ser emanava era por demais pesada. Aterradora. Jamais ousaria exigir que aquele titã azul o chama-se de “amo”.

 

Quantas vezes fora chamado de louco e persistira obcecadamente apenas porque sabia ser a mágica da Caverna verdadeira? E quantas vezes duvidara de seus próprios olhos, ao enfrentar as privações da miserável desgraça na qual o mundo se tornara? No entanto, sua busca infindável para estar no lugar e hora corretas da aparição da Caverna, fora recompensada.

 

Agora o Gênio estava perante ele e arfava mais pesadamente do que a bocarra de areia escura da Caverna. Cada segundo lhe parecia uma terrível agonia, mas ele ainda vencia a luta para permanecer firme, imponente. Apenas flutuava, medindo-o com as brasas dos olhos, desafiando-o a falar primeiro. O Mestre das Luas de Sangue cerrou os punhos e levantou. Ergueu a Lâmpada, como um cetro de triunfo. O gigante expressou uma pontada de desgosto. Ao falar, as tatuagens de ouro que cobriam seus braços inchados de músculos, se acenderam tais quais os olhos. Sua voz era ainda mais aterradora que a da Caverna.

 

– UM DESEJO… – E quase cuspiu a palavra seguinte: -… AMO.

 

– As lendas… Sempre falavam de três… – respondeu o guerreiro, ofegante. – Dois cuidadosos, para que o gênio não os distorça, e o último para aprisioná-lo novamente. – Era loucura desafiar a entidade daquele jeito, mas precisava saber. Precisava acertar. Mas o titã pareceu gostar da ousadia. Com um meio sorriso a incandescência de seu corpo amainou.

 

– MEU AMO É UM CONHECEDOR DAS VELHAS HISTÓRIAS. MAS ELAS MENTEM. O GÊNIO SOFRE AO SAIR DE SUA CLAUSURA, POIS DESFRUTA DO PRÓPRIO PARAÍSO NA LÂMPADA. – E enquanto Hadalin sustentava mais uma tontura, a criatura mística começou a devanear. Afinal, qual a graça de ter todos os seus desejos realizados, se não puder contar a ninguém?

 

– TÃO FARTAS E DELICIOSAS IGUARIAS QUE QUASE SANGRAM O PALADAR! CANÇÕES TÃO BELAS QUE SE PODERIA OUVIR POR ERAS! HARÉNS DE DONZELAS TÃO LUXURIOSAS QUE MIL HOMENS FORTES NÃO PODERIAM SATISFAZER! FAZE TEU UM DESEJO, AMO, VOS IMPLORO! NÃO ME AGRADA ESTAR NESTE INFERNO QUE CHAMAIS DE LAR.

 

Mesmo uma criatura recém-chegada sentia a podridão de sua terra! Hadalin reprimiu uma careta. Mas era chegada a hora, finalmente! Um desejo, que fosse! Era tudo que ele precisava! Com apenas algumas palavras evitaria todo o caos, toda dor e morte. Voltaria no tempo, recusaria a mentira do feiticeiro e usaria a Lâmpada para seu próprio bem. Mataria o velho bruxo, o céu não seria queimado, as luas permaneceriam belas, não precisaria se dedicar ao absurdo treinamento para sobreviver e empreender aquela busca… Poderia reencontrar Iasmin e ser feliz com ela para sempre.

 

Felicidade… A palavra doía nos dentes.

 

O desejo, seu desejo, estava pronto há uma dezena de ciclos. Agarrou-se a um último jorro de força.

 

– Que seja Gênio! Um único desejo me basta! Quero voltar no tempo, ao instante onde toda minha desgraça e a do mundo começaram! Impedirei Belsazar de obter tua lâmpada!

 

Os olhos do gênio se tornaram opacos… Em decepção. Gostara do rapaz. Mas seu desejo fora tão tolo quanto os de vários outros. Talvez a exaustão… Talvez a dor… Mas as palavras foram ditas. O gigante abriu os braços num gesto lento, suas tatuagens brilharam, e a realidade começou a se desfazer. Porém sua voz ainda retumbou na confusão de Hadalin.

 

– AH, AMO… ESCOLHESTE MAL… ESCOLHESTE MAL.

 

Hadalin não conseguiu entender. Por que? Não era o perfeito momento para alterar tudo? Não eram nobres suas intenções? Não evitaria um grande mal? As mãos do Gênio se uniram e a energia luminosa que delas cresceu inundou a câmara. Hadalin viu o mundo embaçado girar. Vomitou.

 

Quando abriu os olhos, estava deitado na câmara. A mesma luz convidativa banhava as paredes, vinda de lugar nenhum. Mas o pedestal da Lâmpada estava vazio.

 

Um novo desespero se instalou como a ferroada de um escorpião em sua espinha. O Gênio o enganara! Não era possível! Tentou correr, gritando a cada nervo e célula moribunda que se movesse por um pouco mais. Lembrava o caminho. Ainda estava na Caverna. Não percebeu de imediato, mas não sentia o veneno ácido no ar.

 

Correu como nunca antes. Esquecido do cansaço, cruzou câmara após câmara até o lugar onde fora enganado pelo feiticeiro Belsazar.

 

Mas já era tarde.

 

Chorou de desgosto, quando a compreensão o atingiu com a força destrutiva de uma espada-canhão.

 

Trombou e caiu nos braços de um garoto magro e sujo, de apenas dezesseis ciclos, os olhos escuros arregalados de pavor. Não fora o Gênio, nem algum truque para aprisioná-lo ou deixá-lo livre. A criatura não parecia decepcionada? E a Caverna, não o saudara como a um velho amigo? “Escolheste mal, amo”, ouviu novamente. Não era questão de ser ambicioso ou altruísta, ou pedir coisas impossíveis. Era tudo uma questão de escolher bem… As palavras.

 

Sua chegada assustara o garoto como se demônios o tivessem atacado. Mas Hadalin, o guerreiro, sabia que era inofensivo agora. Que sua boca, rachada e seca – a garganta arranhada, os pulmões destruídos de veneno e esforço – não conseguiriam dizer sequer uma palavra. Não conseguiriam advertir o garoto.

 

Sim, fora o exato tempo e instante onde tudo fora arruinado pela traição e tolice. Mas escolhera mal e retornara ferido, fraco e sem indicar o local exato da chegada,

 

No medo dos olhos do garoto viu refletido seu próprio olhar ensandecido de penúria e desespero. Ele precisava entender! Como o faria entender!? Ele precisava fazer diferente! Precisava romper o ciclo que criara sem saber, por um desejo mal formulado. Suas unhas tortas, seus dedos sujos, se agarraram aos braços magros da criança, tentando lhe explicar.

 

Mas, antes que se desse conta sua força se esvaiu no abraço do jovem.

 

Hadalin, o garoto de rua, decidiu que jamais sucumbiria daquele jeito. E o poder de um anel mágico lhe nutriu até que conseguiu escavar com as próprias mãos uma saída da escuridão.

 

* * * * *

 

Não lembro exatamente de onde veio a ideia para este conto. Acho que vi alguma imagem de Aladdin como guerreiro estilo Prince of Persia e aí pensando no deserto, misturando com um pouco de O Livro de Eli… Não podia deixar isso só na cabeça!
A ideia de um cataclisma relacionado a um loop temporal é outro mistério. Acho que Os Doze Macacos  impressionou o jovem Matheus mais do que eu pensava.

 

O conto é um tanto pessimista, mas gosto muito da cena de ação do começo. Torcer um pouco o conceito dos personagens também foi divertido: a sede de poder sem consequências do Jafar… A aparência ameaçadora, porém gentil, do Gênio quando cumpre uma ordem que não gosta… A determinação do jovem e heróico ladrão.
Foi um experimento interessante.
Espero que você tenha gostado!
😉

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