Um Único Desejo – Parte 1/2

Paulo Silva 01/26/2017

Um Único Desejo parte 1/2

 

Dois cortes. Os corpos tombaram. Sozinho, braços abertos, entre os cadáveres da dupla de bandidos, o esguio guerreiro do deserto expirou. O ar chiou ao cruzar os filtros danificados da máscara de gás. As lentes verdes dos óculos de solda mostravam o pânico infectando os bandoleiros restantes. Cinco deles.

 

Hadalin assumiu novamente a posição de guarda. Suas lâminas finas e curvas preparadas para os movimentos mortais. Inspirou. Sentiu o ar amargo colar como veneno na língua e garganta. Em uma batida de coração reavaliou o cenário. Eram nove bandidos. Os cinco ainda vivos suavam, apavorados. O andarilho magro deveria ter sido uma presa fácil, uma diversão violenta. Mas viram-no disparar balas de suas espadas e em seguida retalhar dois deles como um efreet ensandecido.

 

Não bastasse isso, Hadalin sabia, tremeram ao vê-lo jogar fora o casacão sintético de combate. Expondo sem medo ou dor sua carne marrom à radiação inclemente do céu e areia. E viram as cicatrizes rituais que se espalhavam pelo tronco e braços. As marcas de um mestre das espadas-canhão, um dançarino das Luas de Sangue.

 

Hesitaram por tempo demais.

 

Hadalin avançou como o vento. Não podia deixar que a Caverna mudasse de lugar novamente! Tudo seria em vão. Só tinha aquela noite – e os salteadores estavam no caminho.

 

Porém, quando se viram prestes a receber o beijo da Dama Negra, os instintos lhes chutaram os bagos. Lutaram como animais encurralados. Lanças improvisadas, facões cegos, empurrões, pragas e xingamentos. Até mesmo um tiro. Venderam caro sua pele.

 

Esquerda, esquerda, quebrar a lança. Estocada com a Destra. Quatro.

 

Bloqueio, giro, Canhota corta no joelho. Estocada. Três.

 

Giro. Chute de areia nos olhos. Bala na costela. Dor. Urro. Espadas cruzadas. Uma cabeça rolando. Dois.

 

Rasteira. Salto para trás. Corte no capanga caído. Voadora no peito do em pé. Arremessar Destra e Canhota.

 

Zero.

 

O ar queimava os olhos. Máscara imprestável. Comprimia a lateral do corpo, que jorrava vermelho, e ainda precisara gastar duas balas. Maldição. Era irônico que após trinta ciclos de provações, buscas, batalhas, treinamentos, pistas, mapas, videntes e sortilégios… Estivesse tão perto… E tão ferido.

 

Recolheu suas espadas e contou os espólios: armas grosseiras, um montante considerável de ouro. Inutilidades. Ah! Um cantil meio cheio! Bebeu sofregamente aquele tesouro. Com os dentes, abriu sua última bala e despejou o pó negro na ferida. Estalou os dedos e a chama crepitou, queimando a abertura e remendando a carne. Ganhara algumas horas. Era tudo que precisava.

 

A Caverna estava próxima. Valeria à pena.

 

Vestiu o casaco e a máscara. Naquelas condições… Melhor do que nada. Rezou ao Iluminado por um último jorro de força e recomeçou a caminhada.

 

Olhou para o céu e lembrou-se da época em que era azul sem fim, e não queimado naquele cinza em brasa. Lembrava-se de quando as duas luas eram verde e azul, como os olhos de uma princesa. Agora eram de um vermelho doentio.  Luas de Sangue. O nome da técnica de luta parecia prever o destino de sua terra. Chorou.

 

Só um pouco mais. Só um pouco mais. Dizia a si mesmo. Tudo valeria à pena.
Hadalin era seu nome e nunca desistia. Tantos ciclos passados… A Caverna estava perto! Força homem! Rezou uma vez mais. Vamos!

 

Atirou longe a máscara. Não importava mais. Se o ar pestilento não o matara até agora, então devia ser imune a ele também. O Anel. Só podia ser. Protegera-o também dos efeitos do ar, assim como o guardava do veneno do sol. Mesmo depois das décadas em que estivera na Caverna pela primeira vez, o Anel ainda impedia sua morte. Olhou para a joia apenas para ver que seu brilho enfraquecia. Ela pulsou uma vez mais… E se desfez em suas mãos, sumindo na brisa.

 

Amaldiçoava diariamente o feiticeiro que começara tudo aquilo. Estava cada vez mais perto, podia sentir na vibração de seus ossos. Passo após passo, cruzando as dunas, o guerreiro avançava. E seguiam-no suas lembranças.

 

A infância nas ruas sujas contrastando com os sonhos sobre o palácio. A princesa disfarçada no mercado. A proposta do feiticeiro. A viagem ao deserto, seguindo a magia das estrelas.

 

A Caverna dos Mistérios. O caminho labiríntico, escuro, cuja única luz era o pulsar dos tesouros proibidos. Riquezas mil às quais lhe fora avisado que não tocasse.

 

Parou e bebeu seu último e precioso gole de água. O sol já descia do céu, mas o calor horrendo nunca cedia. Passo após passo, através das dunas. E as memórias eram miragens sobre seus passos.

 

Vagou nos corredores da Caverna até não saber mais quanto tempo lá estivera, mas não sentia fome nem sede. O Anel místico que o feiticeiro lhe dera brilhava a cada necessidade. Finalmente, a câmara central. Já se iam trinta ciclos desde aquele momento. Feiticeiro maldito, que sua alma apodreça e queime nas fornalhas eternas!

 

Cambaleava vez ou outra, mas prosseguia. Determinação, desespero, obsessão e medo se misturavam sob a pele imunda. Não podia parar. Precisava chegar à Caverna. Com aquele ferimento, assim que as gêmeas vermelhas surgissem no céu, cada rato mutante do deserto, em quilômetros, o alcançaria atrás do cheiro de sangue. Nem a maestria na luta das Luas o salvaria desse confronto. E morrer não era uma opção.

 

Uma última memória o assaltou. Garoto, franzino, assustado, agarrado em uma saliência, depois de dias nas trevas, confiara na palavra sem honra do bruxo. Acreditara que o velho iria içá-lo caso lhe entregasse o Tesouro. Acreditara. Confiara. Idiota. O céu queimado, as luas vermelhas, as areias escuras, o sol e o ar cheios de toxinas… A vida da princesa, de sua cidade, de todos que conhecia… Pagaram o preço de sua estupidez.

 

Não fora a tolice e ambição do feiticeiro que desejara poder ilimitado. Fora a sua própria em se deixar iludir. Entregara a Lâmpada por medo do escuro. E com a escuridão fora recompensado. Só o precioso Anel lhe salvara a vida, curando seu corpo da queda medonha, alimentando-o nos dias de solidão. Sua culpa.

 

A Caverna, então vazia de suas riquezas, o esquecera. Teria desistido de viver, não tivesse trombado com aquele guerreiro magro, envelhecido e moribundo, de olhos esbugalhados. O olhar que ainda o atormentava todas as noites. O homem morrera em seus braços, raspando sua pele com as unhas tortas, tentando dizer alguma coisa.

 

Ficou apavorado. Depois, com calma, concluiu que era apenas mais uma pobre alma perdida no labirinto, prisioneira das sombras da Caverna dos Mistérios. Aquele olhar de penúria, de último desespero, lhe penetrara fundo na alma. Decidira jamais sucumbir daquele jeito. E o poder do Anel o nutriu até que conseguiu escavar com as próprias mãos uma saída da escuridão.

 

Apenas para descobrir que o velho feiticeiro libertara tanto poder com seu desejo mal feito que trouxera o veneno e a morte ao seu mundo. A grande cidade queimara na loucura do vizir. Não sobrara nada. Nem mesmo o maldito bruxo, para que Hadalin pudesse lhe cortar a garganta.

 

Uma lágrima ardida rolou pelo rosto cansado, levando consigo a tola lembrança de que pretendia usar a lâmpada para desposar Iasmin. Mas não havia magia no mundo que pudesse trazer a cidade, o palácio e sua princesa de volta. Ou havia?

 

Cada um de seus poros sentiu as energias místicas que circundavam o local. Lá! Entre aquelas dunas! Respondendo a sua chegada, brilhava o círculo de desenhos arcanos onde ela se ergueria. A Caverna!

 

Entoou as palavras, como fez naquele fatídico dia: “Abri, perante aquele que é digno!”, mas receou que não mais o fosse. Tanto sangue derramado… Porém, as areias pensavam diferente. Num turbilhão, a massa de pó escuro afundou e depois subiu, formando a bocarra pré-histórica de um felino demoníaco. Respirava, como que ameaçando engoli-lo, mas o brilho verde dos olhos enormes denunciou reconhecerem o antigo visitante.

 

– JÁ SE VÃO MUITOS CICLOS, HADALIN. ÉS O PRIMEIRO A VOLTAR E, UMA VEZ MAIS, ÉS BEM-VINDO. ENTRA. CONHECES A REGRA. – Falou a Caverna dos Mistérios, com uma voz tão grave e potente quanto se esperaria de um senhor das profundezas.

 

A Regra. Não tocar em nada. Sabia que adentrava a criação de algum ser primordial para tentar a cobiça dos homens. Avançou cego a qualquer tentação que se mostrasse. Comidas mil. Mulheres belíssimas. Rios de água, leite, e mel. Joias incontáveis. Um céu azul e perfumado. Tremeu. Mas nada importava. Seguiu o tortuoso caminho com a perícia de quem o teve queimado a fogo na lembrança.

 

Por fim, o silêncio.

 

Uma vez mais passara no teste. Ouvia apenas o gotejar de seu próprio sangue. Estranhou, mas sentiu o vermelho quente escorrendo de novo. Pouco tempo! Alcançou a câmara!

 

A mesma luz mística pulsava, convidando o vencedor do desafio. Ao final de uma íngreme escada de pedra, sobre um pedestal, lá estava ela exatamente como Hadalin se lembrava. O tesouro! A Lâmpada! O cilindro metálico, negro e decorado com motivos de chamas, passaria apenas como um bastão de luz elaborado que despejava seu facho de luz quando se girava sua base. Algum outro pensamento aleatório cruzou a mente do guerreiro antes de subitamente a Lâmpada triplicar às suas vistas. Caiu prostrado pela tontura. Viu uma poça de escarlate. Estava morrendo.

 

                                                                                                     * * * * *

 

Acha que já entendeu tudo sobre a história de Hadalin e a Caverna dos Mistérios?
Rá!
Esta é só a primeira parte!
Não perca a conclusão dessa história!
E tome cuidado com o que você deseja…
😉

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