O Mecanismo (1ª temporada) – Crítica

Matheus Albuquerque 04/4/2018

… se todas as coisas fossem absolutamente boas, seriam incorruptíveis, e se não tivesse nenhum bem, nada haveria nelas que se corrompesse. De fato, a corrupção é nociva, e se não diminuísse o bem, não seria nociva. Portanto, ou a corrupção nada prejudica – o que não é aceitável – ou todas as coisas que se corrompem são privadas de algum bem.” Santo Agostinho, in ‘Confissões’.

 

A Netflix nos apresentou um retrato que mistura o ficcional e o realista, porém dolorido, do que a nação Brasileira vem vivenciando nos últimos anos. Fatos que já foram expostos e comprovados estão lá, justamente as especulações são a parte fictícia da história, que não se presta a negar seu teor fictício. Para quem dirige o projeto, foi dada a missão de desagradar os dois lados da moeda das inverdades (sendo bem eufemístico) do país deste crítico que vos escreve. Para o roteiro, a missão de ser sutil, da mesma forma que a política trata seus desfechos no Congresso Brasileiro. Para os atores, teriam que representar aqueles que são os verdadeiros vilões da vida real. Nada de Thanos, Coringa ou Darth Vader aqui. Estamos falando da Política do maior país em extensão territorial da América do Sul e o 79º país no ranking do IDH mundial. O lugar dos extremos, onde tais extremos encontram-se na mesma mesa da corrupção. Brasil.

 

Nessa empreitada, o resultado foi uma série digna, com muito mais do que uma visão isolada sobre a história brasileira.

 

José Padilha conta a história da Operação Lava Jato pela ótica dos policiais Marco Ruffo (Selton Mello) e Verena Cardoni (Carol Abras). O ritmo da série te conduz pela mente dos personagens de tal forma que chega a ser receptiva se não fosse revoltante. Com um roteiro preocupado com os detalhes, O mecanismo surpreende em diversos momentos dando à direção um prato cheio para fazer cenas memoráveis. As atuações dão orgulho. Falando mais especificamente de Selton Melo, cada frase é colocada em seu devido momento com a expressão que só um ator acompanhado de um bom diretor consegue dar. Assim como Wagner Moura em Narcos (2015) Selton vem com planos que exaltam a sua atuação com a sutileza de uma câmera de mão que é característica do Padilha. Carol Abras também cresce, fazendo com que meu conceito de sua atuação mediana mude. O elenco por completo é memorável tirando alguns atores de apoio que ainda insistem na escola brasileira das novelas para dar tom dramático aos personagens, exagerando em certos momentos.

 

Não sendo por essas falhas, é de se creditar também a fotografia e trilha da série. Sendo eles os quesitos técnicos que mais se sobressaem.

 

Sobre a história, há quem chame de campanha política antecipada. Prefiro chamar de demonstração de todos os valores dos maiores partidos do nosso Brasil. Valores onde não impera a ética e nem a moralidade, contudo enquanto houver bem, ou ele se acostuma com a nocividade desses valores, e entrega a casa de vez para que a corrupção não tenha mais o que corromper, ou trabalhamos para o incorruptível. Utopia?

 

Parabéns à toda equipe da Netflix pelo exposto.

 

9 Xícaras

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