Missão Amazônia – Capítulo único [Conto]

Paulo Silva 12/9/2016

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Por Matheus Olivaer

 

Era pra ser algo simples: entrar, sabotar o mainframe, sair. Explosivos. Mandar a mensagem de que a Amazônia é nossa. Como pôde dar tanta merda? Corre, Laura! Continua correndo!

 

Desviei para a esquerda e o tiro explodiu em uma árvore. O traje avisou meu sistema nervoso um milissegundo antes do feixe de prótons me atingir. Feixes de prótons! Essa era a novidade dos drones de vigilância da Corporação do Hemisfério Norte! Estavam sempre evoluindo suas máquinas de matar. A gente da resistência sul-americana mal conseguia acompanhar. Olhei o medidor de energia no meu pulso. O traje tinha mais vinte minutos de força. Eu teria sorte de conseguir correr por mais dez.

 

O cheiro molhado da floresta incomodava meus pulmões. Bizarro. Nós humanos cagamos tanto o planeta que agora até ar puro era ruim pra gente! Os ricaços do Norte foram pro espaço e voltaram há anos. Não tem nada lá fora. Só temos essa velha bolota azul mesmo. E descobrimos isso tarde demais.

 

Não tem mais mar. Acabou o verde. Já era. Game Over. A não ser pela Amazônia, estamos f****** junto com o planeta inteiro.

 

E aí o Norte – os mesmos engravatados que bateram os pregos do caixão da Terra – invadiu nosso país. “Pra garantir a sobrevivência da espécie e do planeta”, eles disseram. P**** nenhuma! “Não podemos confiar nas autoridades brasileiras”, eles disseram. Bom, nesse ponto até que eu…

 

ESQUIVA! CORRE! CORRE! PULA! ARGH!!

 

O último tiro pegou minhas costas de raspão, mas já doeu pra c… Não! A bateria do traje! A camuflagem termossensorial já era! Merda! Merda! Sou uma biohacker! Não uma guerrilheira, c******! Aqueles p**** foram os primeiros a morrer e me deixaram sozinha aqui! Merda!

 

Tentei mudar de direção, mas luz e trovão me cercaram. Fogo. A floresta girou. A cabeça zumbiu e acompanhou a dança. Chão. Pedra. Lama. Galhos. Drones. Braços. Cabelo. Lama.

 

Fogo. Girando. Girando.

 

Escuridão.

 

Abri os olhos. Difícil respirar. Sangue por toda parte.

 

Meu sangue.

 

Era pra ser algo simples. Entrar, sabotar… A Amazônia é nossa. Camuflagem até o ponto de extração. Não dava pra transmitir… Bloqueadores de sinal por toda parte. Toneladas de dados entraram lindamente pelos nanochips dos meus dedos até meu HD coclear. Informações de negócios, resultados de pesquisas… O firewall deles era bom, mas eu era melhor. E aí… Fotos, vídeos, relatórios… Gritei. Testemunhei experiências genéticas absurdas, demoníacas… Salas e laboratórios repletos de animais e… Deus… Crianças… Manipulação genética… Todos fracassados… E pra quê!?

 

Essa foi a pior parte.

 

Pra resistir. Sobreviver.

 

Aguentar o que estava por vir na Terra completamente devastada. A Amazônia já era. As técnicas agrícolas superdesenvolvidas da Corporação eram as únicas coisas que separavam a mata da morte inevitável em um ou dois anos.

 

Acabou o verde. Já era. Eles f****** tudo e agora… Game Over. O planeta… Condenado… Lutávamos por nada. Estávamos mortos.

 

Difícil… Respirar…

 

Ouvi os drones se aproximando. A explosão me jogou barranco abaixo… Sei lá. Não importa mais. Estamos mortos. Todos nós.

 

Minha mão tremia, mas alcancei o detonador.

 

Mortos.

 

F***-se. Explodi a p**** toda….

 

* SIMULAÇÃO ENCERRADA *

 

– Estado da colaboradora Laura?

 

– Terminal, Mestre. Os ferimentos eram simulações, mas, uma vez que ela morreu virtualmente… – Respondeu o homem franzino de jaleco sujo, fechando os olhos da garota deitada na cadeira de dentista. Fios saiam da tiara neural que ela usava, cruzando a sala.

 

– Entendo. – Respondeu a figura sem rosto transmitida pelo monitor. A voz grave sintetizada incapaz de definir se vinha de homem ou mulher. – Encerrar Role-Playing Grid.

 

– Sim, Mestre – Respondeu o mirrado cientista. – Qual será o próximo passo, Mestre?

 

– Localizar outro colaborador qualificado. A Missão Amazônia não nos dá o luxo de enviar alguém incapaz de lidar com ambiguidade física, emocional ou de informação.

 

– Mestre… E se não encontrarmos…?

 

Pausa. O cientista jurou ouvir um quase suspiro vindo do outro lado da tela.

 

– Continuaremos lutando… Continuaremos lutando.

 

* * * * *

 
E chegamos ao final de mais uma commission bem sucedida! Foi difícil, mas acho que o resultado compensou. =D

 

Esta foi uma encomenda do querido Marcelo Ferrari, webmaster do portal de podcasts Terceira Terra, que pediu: “Um miniconto de Sci Fi com protagonista feminina, que se passe na Amazônia em um futuro distante”.

 
Espero que tenha gostado dos finais, chefe! =D

 

 

E em breve, galera, novidades aqui no site. Fiquem ligados! Abração!

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