Festival Cine PE 2018

Thais Costa 06/8/2018

No dia 29/05 (quinta-feira), foi dada a largada para a 22ª edição do Cine PE. O famoso festival de cinema da cidade do Recife, que sempre traz algo de bom que anda acontecendo no audiovisual pernambucano e brasileiro. Devido à greve dos caminhoneiros, o festival foi adiado em dois dias e passou então a ter entrada gratuita. Mesmo com essas dificuldades que a população veio enfrentando nos últimos dias, o público lotou o Cinema São Luiz, um dos lugares mais emblemáticos e queridos da cidade. O festival composto por mostras competitivas de curtas e longas-metragens, trouxe obras excelentes e contextuais. Depois da polêmica política que rodeou o festival no ano anterior, esse ano podemos dizer que o público saiu bem satisfeito de todas as noites do festival.

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Mesmo com as dificuldades que o cenário cultural enfrenta atualmente, no que diz respeito a incentivos e patrocínio, foi mostrado que mesmo com pouco é possível fazer obras que fiquem guardadas na memória do espectador. Um exemplo disso foi a mostra competitiva de curtas-metragens pernambucanos, se destacando os curtas de animação, bem produzidos apesar do pouco poder aquisitivo para construção da obra.

 

Neste ano as obras selecionadas para as mostras competitivas foram de bom gosto, com temáticas variadas, desde temas mais leves a assuntos mais polêmicos, pesados e de cunho político. Se destacando entre eles, o curta Marias (RJ) com direção de Yasmim Dias, o curta retrata a violência contra a mulher e traz depoimentos de vítimas de relacionamentos abusivos, assim como a diretora do curta retrata a história de sua mãe, que foi assassinada pelo companheiro. Uma obra audiovisual de extrema coragem e que foi aplaudido firmemente, sensibilizando o público que lotava o cinema naquela noite.

 

Outro que também marcou quem estava presente foi o curta Sob o delírio de Agosto (PE), de Carlos Kamara e Karla Ferreira, que traz o enredo de Severo, um homem do campo, que entra em conflito com o real e o imaginário, ocasionando consequências sérias para sua vida e da sua família. A obra toca no assunto da esquizofrenia, de como ela pode surgir e o problema de não ser detectada. Além desses, também se destacou  Abismo (RJ), de Ivan de Angelis, que narra a vida de Juvenal, um porteiro que está preso na sua rotina. Entrando na temática política e social podemos destacar o curta Vidas cinzas (RJ), de Leonardo Martinelli. Um falso documentário que consiste na ideia do governo do Rio de retirar as cores da cidade, com imagens de protestos e depoimentos de artistas e políticos, arrancou grande manifestação do público com a aparição da deputada Marielle Franco, que foi assassinada em março.

 

Na mostra de longas, se sobressaiu o documentário Marcha Cega (SP), de Gabriel Di Giacomo. Que retrata a ação da polícia em manifestações desde a copa do mundo de 2014, até as últimas manifestações contra o governo no ano passado. O longa trouxe depoimentos de pessoas que sofreram com ações truculentas e abusivas de policiais e que sofrem consequências até hoje. Chocou o público presente na noite do sábado (2). Um filme digno de prêmio.

 

Além disso, continuando na temática política e social, a noite do domingo (3) foi marcada pela melhor seleção de curtas. Universo preto paralelo (SP), de Rubens Passaro. Foi de longe o mais aplaudido e que mais arrancou manifestação do público. Consiste em um documentário que retrata a tortura dentro do sistema escravocrata até o período da ditadura militar. Trazendo depoimentos de torturadores, entre eles o do coronel do exército Carlos Alberto Brilhante Ustra a comissão da verdade. Vale relembrar que Ustra foi citado pelo deputado Jair Bolsonaro na votação do impeachment da então presidente Dilma Rouseff. Em paralelo traz uma psicóloga explicando e relatando o sentimento do torturador ao cometer tamanhas atrocidades e comparando  o estilo de tortura que não mudou em nada tanto do período da escravidão até a ditadura militar. E Peripatético (SP), de Jessica Queiroz, que relata a dificuldade do jovem de ingressar no mercado de trabalho, destacando o dilema da mulher jovem negra de periferia. Em paralelo com o adolescente que quer estudar e encontra dificuldades no seu cotidiano por sua condição financeira e social. O filme é de muito bom gosto e um verdadeiro tapa na cara da sociedade. Foi um dos destaques da noite e muito elogiado.

 

O curta Não falo com estranhos (BA), de Klaus Hastenreiter, arrancou risos da plateia que se identificou na hora com os personagens envolvidos e a situação apresentada. O roteiro consiste em um rapaz que vai ao consultório médico e tenta puxar assunto com uma menina que senta ao seu lado. Diante dessa situação se desencadeia uma série de acontecimentos em seu subconsciente. Com uma direção de arte de bom gosto, diálogos fluidos, assim como atuações com efeito natural e carismático. Empolgou muito o público e recebeu muitos aplausos. E o ótimo Insone (SP), de Breno Guerreiro e Débora Pinto. O curta de animação retrata a criatividade infantil. No qual mostra dois irmãos assumindo diversos personagens e cenários diferentes enquanto brincam sem sair do seu quarto. Bem divertido e foi bem recebido pelo público, faz uma analogia do que a criança assiste e de como ela reproduz o que ficou na sua mente.

 

Dentre todas essas obras citadas, foram exibidas muitos outros curtas e longas de extrema sensibilidade e poder de pertencimento, que fez o público curtir muito, se identificar e se manifestar de forma ativa nesses seis dias de festival.

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O festival esse ano possibilitou homenagear diversas figuras do cenário do cinema nacional. Foram eles: A homenageada da quinta (31) foi a cineasta pernambucana Katia Mesel, que esse ano completa 50 anos de obras audiovisuais, Katia foi a primeira mulher a fazer cinema em Pernambuco, a primeira em participar de um festival de cinema nacional e a primeira cineasta a ter um programa de tv independente. Suas obras são pura divulgação da cultura pernambucana, na qual ela se orgulha muito. Além disso, é especialista em produção cinematográfica em super-8. Ela foi bastante aplaudida ao receber o seu troféu, o calunga de ouro.

 

Na sexta (1) a homenageada da noite foi a atriz Cassia Kis, que subiu ao palco bastante emocionada e foi surpreendida com a presença do ator Gabriel Leone, que foi ao evento para entregar pessoalmente o troféu calunga de ouro a ela. O encontro dos dois rendeu muitos aplausos, seguidos de demonstrações de carinho entre eles que contagiaram o público. Já o homenageado do sábado (2) foi o ator Rodrigo Santoro, que se emocionou durante todo o seu discurso, relembrando seu primeiro trabalho, o filme Bicho de sete cabeças que também lhe deu uma premiação no Cine PE em 2001. Quem entregou o seu troféu  foi a atriz Cassia Kis, que fez a sua mãe no filme. Ambos estavam muito emocionados e arrancaram aplausos de pé. No domingo (3) a homenagem foi para a emissora Box Brasil, que recebeu o troféu das mãos da diretora do festival Sandra Bertini.

 

Na sessão de exibição de filmes Hors Concours (que significa fora de competição) o público pode apreciar o o curta de animação Desculpe, me afoguei, fruto de uma colaboração entre MSF (Médicos sem Fronteiras) e o estúdio libanês Kawakeb. O filme é inspirado em uma carta que circulou nas redes sociais em 2015 e que teria sido encontrada junto ao corpo de um refugiado sírio que se afogou no Mediterrâneo. “Não se preocupe, Departamento de Refugiados, não vou ser um peso para você. Obrigada, mar, por ter me recebido sem visto e sem passaporte”, diz. Retrata a vida de refugiados sírios que tentaram e ainda tentam chegar à Europa.

 

Além desse, também ocorreu o lançamento do longa Mulheres Alteradas (SP), de Luís Pinheiro. Que é uma adaptação da obra da cartunista argentina Maitena Burundarena, o elenco é composto por Deborah Secco, Maria Casadevall, Alessandra Negrini, Monica Iozzi entre outros. O longa é bem divertido e foi bem recebido pelo público, que saiu do cinema sorrindo.

 

Na segunda (4) aconteceu uma Mostra infantil fechada para alunos da rede pública de ensino, com o filme Detetives do Prédio Azul (D.P.A). No festival também ouve o lançamento do livro Histórias do cinema de animação em Pernambuco, do autor Marcos Buccini, que esteve todos os dias no hall do cinema autografando e conversando sobre a sua obra.

 

Pelo terceiro ano consecutivo o festival teve legendagem eletrônica para atender ao público deficiente auditivo e o público ainda pôde votar no júri popular pelo aplicativo do próprio festival. Podemos afirmar que o Cine PE foi um sucesso de público e de obras, muitas delas que só costumam ter a chance de serem exibidas em salas de cinema em festivais. Fica a dica para quem ama cinema. O audiovisual pernambucano e nacional está cada vez mais vivo do que nunca e que traz consigo o poder crítico social e político, que podemos apreciar em muitas dessas obras exibidas ao longo desses seis dias de festival. Que venha o Cine PE 2019.

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Na noite de encerramento do Cine PE, terça (5) podemos conhecer os premiados do festival e a lista segue abaixo:

Mostra competitiva de curtas-metragens pernambucanos:

Melhor Filme: “Uma Balada para Rocky Lane”
Melhor Direção: Diego Melo (“Seja Feliz”)
Melhor Roteiro: Fabio Ock (“Seja Feliz”)
Melhor Fotografia: Henrique Spencer (“Frequências”)
Melhor Montagem: Marcos Buccini (“O Consertador de Coisa Miúdas”)
Melhor Edição de Som: Adalberto Oliveira (“Frequências”)
Melhor Trilha Sonora: Neilton Carvalho (“O Consertador de Coisas Miúdas”)
Melhor Direção de Arte: Lia Letícia (“Frequências”)
Melhor Ator: Heraldo Carvalho (“Edney”)
Melhor Atriz: Roberta Mharciana (“Cara de Rato”)

Mostra competitiva de curtas-metragens nacionais:

Melhor Filme: “Vidas Cinzas” Melhor Direção – Klaus Hastenreiter (“Não Falo com Estranhos”)
Melhor Roteiro: Rubens Passaro (“Universo Preto Paralelo”)
Melhor Fotografia: Ivanildo Machado (“Sob o Delírio de Agosto)
Melhor Montagem: Pedro de Aquino (“Vidas Cinzas”)
Melhor Edição de Som: Rafael Vieira (“Abismo”)
Melhor Trilha Sonora: Alexsandra Stréliski e Ludovico Einaudi (“Plantae”)
Melhor Direção de Arte: Rachel Oleksy (“Teodora Quer Dançar”)
Melhor Ator: Jurandir de Oliveira (“Abismo”)
Melhor Atriz: Mariana Badan (“Teodora quer Dançar”)

Menções Honrosas

Marias”: Pela relevância do tema apresentado através de depoimentos reais, emocionantes e contundentes.
Plantae”: Pela atualidade e importância do tema abordado lindamente de forma simbólica e poética.
Insone”: Pela capacidade de síntese na narração em tão pouco tempo, de uma história de aventura do imaginário infantil.

 

Mostra competitiva de longas-metragens:

Melhor Filme: “Henfil” Melhor Direção – Angela Zoé (“Henfil”)
Melhor Roteiro: Angela Zoé e Gabriela Javier (“Henfil”)
Melhor Fotografia: Alisson Prodlik (“Os Príncipes”)
Melhor Montagem: João Rodrigues e Indira Rodrigues (“Henfil”)
Melhor edição de som: Marcito Vianna (“Os Príncipes”)
Melhor Trilha Sonora: Gustavo Jobim (“Os Príncipes”)
Melhor Direção de Arte: Letycia Rossi (“Dias Vazios”)
Melhor Ator Coadjuvante: Tonico Pereira (“Os Príncipes”)
Melhor Atriz Coadjuvante: Carla Ribas (“Dias Vazios”)
Melhor Ator – Ex-Aequo: Igor Cotrim (“Os Príncipes”) e Arthur Ávila (“Dias Vazios”)
Melhor Atriz:  Patrícia Niedermeier (“Os Príncipes”)

Prêmio da Crítica
Melhor Longa-Metragem – Christabel 
Melhor Curta Nacional – Abismo (Menção Honrosa para Universo Preto Paralelo)
Melhor Curta Pernambuco – Seja Feliz

Prêmio Canal Brasil
Melhor Curta: Universo Preto Paralelo.
 

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