EXPERIÊNCIA DE LEITURA – O NATIMORTO [Lourenço Mutarelli]

Rafael Melo 06/14/2017

Por Liz Souza

 

Sabemos o quanto é árdua a tarefa de desmistificar o que é Literatura e se existe algo que a faz ser ainda mais enigmática são os inúmeros questionamentos que possuímos no que se diz respeito ao narrador pós-moderno. Todos temos histórias a contar e enredos a serem desenrolados ao longo da vida, tenham estes se tornado uma jornada a quem todos saibam reproduzir, ou mesmo através dos livros a quem o escritor recorrerá ao narrador de sua história para que aquilo, o que ele tem a contar, de fato, exista.

 

Assim, em O Natimorto, grande obra de Lourenço Mutarelli, desdobra-se um narrador que é ciente de tudo, mas que deixa seu curso seguir através do que lhe parece reservar o destino. Roland Barthes diz que “(…)a narrativa é uma simples acumulação de pensamentos” e nos parece que o narrador-personagem, O Agente, possui dentro de si todos os pensamentos do mundo e todo planejamento necessário para que Roda da Fortuna não padeça no final.

 

Desta forma, o protagonista se mantém distante do mundo, num quarto de hotel junto com A Voz, tentando preservá-la das mazelas mundanas sem sucesso. Ele guarda em seu interior uma espécie de abismo complexo e aleatório, apesar de sabermos que se faz necessário para produzir uma narrativa, um sistema implícito de regras. As regras, no entanto, são ditadas nesta obra pelo narrador-personagem, destacando-se seu sistema de leitura do destino – seu e dos personagens-fantoches (A Voz) – através das propagandas antifumo dos maços de cigarro. Não era apenas um conjunto de regras, era um plano inexorável, era a premonição infalível do seu querer que se realizava.

 

Dentro da narrativa, aquele a quem pertenceria todo o futuro, se perpetuava como quem está disposto a flexibilizar qualquer situação. O narrador-personagem, portanto, possui a noção de performance – ele sabe como engendrar narrativas. Além das histórias que ele conta sobre sua própria vida, ele narra a vida daqueles que estiveram com ele, mesmo que estes não se lembrem de sua existência quando ausente; ele conta as histórias baseadas na simbologia do Tarot, histórias que ainda serão construídas quando ele as lê e referencia a cada manhã, a cada maço de cigarro.

 

Percebemos, portanto, que o narrador-personagem mostra suas intenções de forma clara, mas ainda assim, de forma neutra, como se estivesse se isentando de sua própria fala, de suas próprias ideias – como se fosse o outro a fazer as escolhas, e este, sem saber que é o fantoche anteriormente citado. As perspectivas que os outros personagens possuem não passam de uma falsa realidade que o narrador os faz acreditar, viver, retomar e satisfazer o seu desejo primário. Quando ele arquiteta todo o esquema, já se sabe que não haverá falhas: O Agente sabe que a falta de potencial para o canto d’A Voz é a chave para que tudo aconteça como ele prevê. Ela será seduzida e, posteriormente, humilhada. Assim, ela volta para doar seu talento, que não pode ser percebido pelo mundo, para aquele que sempre a acolheu.

 

E não são apenas os personagens-fantoches a quem o narrador-personagem procura atrair para a realização de seu destino. O leitor também fica a mercê de seus devaneios, suas histórias: ele procura a verossimilhança no que ele decifra através das propagandas dos maços de cigarro. A fumaça de cada cigarro acesso durante a trama ofusca a visão do leitor, não deixa que ele perceba que O Agente quer se manter escondido do mundo, porque tudo o que ele pensa e faz, em sua realidade, apesar de não ser aceito, é coerente. Ele tenta ludibriar o leitor, mantê-lo refém de suas histórias mostrando-lhe que ali existe abrigo, um lugar para o qual ele pode retornar.

 

O narrador-personagem afirma também que, enquanto muitos disfarçam sua personalidade, incluindo os Gênios da Humanidade, ele se mantém autêntico: ele sabe quem é e pode, através das interpretações, saber para onde vai mesmo que seja em um único cenário, as quatro paredes de um quarto de hotel. Por que lhe interessaria o destino de quem está lá fora?

 

Mas A Voz está lá fora. O Agente entrou num acordo com ela, chegaram ao meio-termo, o que talvez este tenha sido seu maior erro, pois para ela já não importava o controle do destino nem as alegrias ou infortúnios daquele dia. Ele a libertou e seu plano começava a falhar. O narrador se fez como um falso submisso a ela, mas acabou sendo uma peça avulsa de seu próprio jogo, participando de um contra-plano de sua organização, de seu planejamento.

 

Nos deparamos, então, com uma situação contrária a que o narrador-personagem havia planejado desde o início, mas como um bom contador de histórias para si, se reinventa como personagem para obter um sentimento solidário e piedoso.

 

A vontade maior de dominar o futuro se manifesta intrinsecamente em sua nova narrativa, pois o narrador-personagem nesta obra, se desenvolve como aquele que não perde espaço no que está contando, sem questionar suas ações como questiona aqueles que não se deixaram manipular. O destino neste momento, portanto, passaria a servi-lo – ele traria a previsão de seus próprios pensamentos para o presente, provando que ele era dono de seu tempo e trajetória final.

Tweet about this on TwitterShare on Google+Share on Facebook
Veja mais!

Comente

Comente pelo site ou Facebook

  1. *