Diários de um Anti Herói – O Filho da Várzea (Parte 1)

Paulo Silva 07/24/2017

Diários de um Anti Herói Caapa

Diários de um Anti Herói

O Filho da Várzea (Parte 1)

 

A história que vou contar não é sobre um herói. Digo isso porque já fui chamado assim, mas nunca mereci. Eu poderia dizer meu nome, mas Curumim é o mais próximo que cheguei disso. Eu não gostava desse apelido, mas parei de me incomodar quando percebi que essa era intenção da maioria dos que me chamavam assim.

 

Minha saga começa num casarão abandonado, o famoso e decrépito Casarão da Várzea, um bairro tradicional do Recife. Ainda posso ouvir com clareza o barulho ensurdecedor dos trovões que beijavam minha cidade na quarta feira ingrata que mudou minha vida. Eu era um jovem órfão e muito pobre. Fazia “bicos” pros comerciantes locais e me abrigava todas as noites no casarão. Naquela quarta-feira eu não havia trabalhado, afinal era quarta de cinzas, a despedida de mais um carnaval. Passei a tarde vagando pelas ruas da Várzea até a noite cair, dezoito horas e o sino da Igreja tocava. Nunca fui muito religioso, então o ignorei e abri os portões enferrujados daquilo que eu chamei de lar.

 

O casarão tinha muitos buracos em vez das portas e janelas e apenas uma escada de madeira que eu usava pra ter acesso ao andar de cima. Sempre que subia tirava a escada do lugar, assim me sentia um pouco mais seguro. No andar de cima, eu me joguei num colchão duro que tinha achado na rua meses atrás e caí no sono. Por volta das 23hrs, fui despertado por um pesadelo horrível e não consegui mais dormir. Fiquei ali alguns minutos, parado, tentando me proteger do frio. Compadecido, um gato preto se aproximou e, se enroscando em minhas pernas, me deu um pouco de carinho. Ele deitou ao meu lado e eu retribuí, passando a mão em seus pelos negros e arrepiados de frio. Eu compreendia bem aquele gato, e ele me compreendia de volta. Éramos dois rejeitados, sozinhos nessa vida. Após alguns segundos de calmaria, eu ouvi um barulho que me pareceu um grito, porém bem distante, então eu ignorei. Por muitos anos eu convivi com a margem da sociedade se refugiando por prazer nas drogas e no sexo dentro daquele casarão, então um barulho perto da meia noite era algo, no mínimo, comum. Mas eu o ouvi novamente, dessa vez mais claro:

 

-Socorroo! – era a voz de uma mulher.

 

O gato ao meu lado logo ficou de pé, espantado.

 

-Meu Deus, o que eu faço agora? – pensei.

 

Minhas pernas ficaram trêmulas e o meu sangue congelou. Eu não sabia bem o que fazer, mas alguém precisava de ajuda e eu tinha condições de ajudar. Então eu me levantei e, devagar, espreitei pelos cantos, com o cuidado de não pisar em nada que me anunciasse. No casarão não havia energia elétrica, todo cuidado era pouco. Enquanto caminhava, percebi que atrás de mim vinha o gato, então o peguei nos braços, pra que ele não fizesse nenhum barulho, mas ele parecia entender o que estava acontecendo e ficou quieto.

 

-Socorrooooooo! – Dessa vez o grito foi mais alto, o que significava que eu estava perto.

 

-Xiiiii… – Uma outra voz pediu silêncio, logo em seguida.

 

Eu estava cada vez mais perto e o meu coração batia cada vez mais rápido. Então, eu cheguei no que, um dia, já foi uma cozinha e pude avistar, nos fundos, um homem sem camisa e com a bermuda abaixada. Ele estava de costas pra mim e suspendia com seus braços finos uma moça de vestido branco e rasgado. Enquanto ela chorava desesperada, o verme alternava entre gemidos horripilantes e pedidos de silêncio. Seu corpo se projetava contra o dela que, a cada movimento, parecia perder um brilho no olhar. Vendo aquela cena, meu medo deu lugar à raiva, minhas pernas se enrijeceram e o meu sangue ferveu. Então eu soltei o gato e me preparei pra atacar.

 

-Sai de cima dela, fila da pu*** – Gritei enquanto corria pra cima do estuprador.

 

-O que?… – Ele virou assustado, mas antes que tivesse alguma reação, eu lhe puxei e o joguei no chão. Ele caíu sobre uma poça de lama, fazendo sapiscar nas minhas canelas.

 

Numa cena interessantíssima, o gato preto pulou em cima dele e arranhou seu rosto, depois eu me joguei em cima do verme e o enchi de pancadas. Um, dois, três, quatro socos e eu já não podia mais contar.

 

-Paaara caralh*, por favor! tu vai me matar, vééééi.. – clamava o criminoso.

 

Eu gritava coisas que nem lembro enquanto tirava todo o sangue que podia do rosto daquele animal até que o deixei tão ensanguentado de modo que não conseguia mais ver seus olhos, boca ou nariz. Então, ofegante, eu parei.

 

Olhei pro lado e vi a moça, na verdade, uma menina que provavelmente não tinha mais que dezesseis anos, assustada no canto da parede.

 

– Por favor, garota, corra pra casa! – Pedi e, em prantos, ela me atendeu.

 

Então eu parei diante do marginal e deixei que a chuva lavasse nossos corpos. A poça de lama sobre a qual ele havia caído quando o puxei tinha virado poça de sangue e o homem não respirava mais. Foi aí que a ficha caiu.

 

– Eu matei um homem! – pensei enquanto assistia o gato preto que me havia feito companhia, depois me ajudado, lamber o sangue do rosto do homem morto.

 

Então eu olhei pra cima enquanto a chuva caía sobre mim. Eu havia tirado uma vida, mas não sentia remorso, pelo contrário, me sentia aliviado, como se tivesse fazendo com o meu bairro o que aquela chuva fazia com o meu corpo.

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