Chegamos ao Fim – Jogador Número 01

Jaderson Henrique 03/28/2018

Seguindo o hype oitentista, Jogador nº 01 traz Spielberg de volta aos blockbusters!

 

É difícil de imaginar outra pessoa dirigindo a distópica criação de Ernest Cline, uma vez que ele foi uma das grandes inspirações do autor quando escreveu o livro em 2011. Seguindo o hype do momento, onde uma verdadeira fixação com os anos 80/90 vem crescendo. Como você vê em Stranger Things, It – A coisa, Everithings Sucks e várias outras séries e filmes. O cinema norte americano parece ter encontrado uma mina de ouro ao olhar para o passado e resgatar o que há de melhor dessas décadas, para uma geração que está vivendo num mundo sem muitas referências no cinema atual.

 

No ano de 2045 após uma crise hídrica, o mundo vira um caos, a pobreza e a fome se espalharam é quando um programador de vídeo games se torna famoso ao criar o único lugar para a população pode ir, uma realidade virtual chamada Oasis. Como uma amante da cultura pop dos anos 80, antes de sua morte cria seu último jogo, ao esconder alguns “easter eggs” dentro desse universo e o prêmio para quem encontrá-los é, além de herdar toda a sua fortuna, passará a ter total controle do Oasis que se tornou a principal fonte de renda mundial.

 

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É muito bom ver o Steven Spielberg de volta ao universo que o consagrou. Nós estamos falando do cara que tem o maior número de filmes que fazem parte do imaginário de toda uma geração. Tubarão, E.T. – O Extraterrestre, Jurassic Park, Indiana Jones, Poltergeist… é impossível não ter assistido nada dele. Que consegue ir do terror ao drama sem deixar nada a desejar. Em Jogador Nº 01 ele mostra que ainda sabe fazer aquele velho cinema, de aventura, envolvente, com uma pegada jovem que mesmo totalmente imerso nas referências de décadas passadas ainda consegue imprimir sua personalidade e uma pegada futurista característica do cinema atual.

 

Seria impossível levar para as telas tudo que foi mostrado no livro, uma vez que muitos dos filmes e personagens usados são de produtoras diferentes o que tornaria inviável uma parceria, lógica e financeiramente falando. Pensando nisso ele convida o próprio Ernest Cline para ajudar no desenvolvimento do roteiro. Criando uma aventura esperta cheia de “Easter Eggs” para os personagens e para quem assiste também. É praticamente impossível assistir ao filme sem ficar procurando que outro personagem famoso vai aparecer e é ai que entra a grande sacada do filme. Aqui as referências não são gratuitas, elas servem para fazer a narrativa andar, logo, quem não viveu os anos 80 e 90 não terá nenhum problema em acompanhar o filme, mas, para quem é dessa época, vai sentir novamente aquele gostinho de infância e aquela nostalgia aquece o coração.

 

Com uma edição precisa, Spielberg mostra que ainda entende de cinema de ação e deixa claro que a experiência só lhe fez bem. Ele utiliza a câmera de maneira inventiva, ela não só como registra os acontecimentos, ela participa da ação, logo em uma das primeiras cenas, numa corrida, você percebe o virtuosismo do diretor. A batalha final, nunca fica confusa, cada elemento tem seu tempo certo para acontecer, ele não trabalha nos moldes do cinema atual com edições picotadas. A montagem utiliza muito bem os dois universos, o virtual e o real, então sempre que acontece algo no mundo virtual, você vê a reação do usuário no mundo real.

 

Os efeitos visuais são um show a parte, muito bem executados e sempre a serviço da narrativa, afinal, estamos falando de um mundo virtual onde tudo é possível. A fotografia contrasta muito bem essa distinção entre os mundos. Usando uma paleta colorida, super saturada quando os personagens estão no Oasis e um tom acinzentado, escuro, sujo, quando estão no mundo real.

 

 

O elenco trabalha bem, na maior parte do tempo vemos apenas seus avatares, pois, grande parte do filme se passa no Oasis, então, o trabalho de voz é bem feito. Ty Sheridan faz o protagonista, Wade Watts/Parzival, o típico herói em sua jornada para encontrar as três pistas que o falecido criador do sistema, James Halliday/Anorak, vivido por Mark Rylance, deixou para o mundo. Olivia Cooke, faz a Art3mis/Samantha, o interesse amoroso do nosso protagonista, Lena Waithe e o Win Morizaki fazem Aech e Daito, amigos e caça ovos também. O vilão fica por conta do Ben Mendelsohn, que faz Nolan Sorrento, um empresário que deseja o controle total do Oasis.

 

Além do terceiro ato, que fica um pouco arrastado, alguns situações inexplicáveis, os maiores problemas aparecem no desenvolvimento dos personagens. Como a narrativa é apressada, não dá para comprar a ideia de alguns relacionamentos existentes no filme. Alguns personagens são esquecidos e mal desenvolvidos e no geral todos eles terminam ficando unidimensionais.

 

Como eu li o livro, confesso que fiquei um pouco decepcionado com a adaptação. Na verdade nem diria que é uma adaptação, uma vez que todos os acontecimentos são apenas, livremente inspirados no que realmente acontece no livro. Então, quem já leu deve ir ver o filme com a mente muito aberta às mudanças propostas pelo longa. Esse talvez, seja o raro caso de você ver primeiro o filme para depois ler o livro. Outra dica que não costumo dar é, veja o filme em Imax, ou na maior tela possível e em 3D, dessa vez o artifício funciona. Assisti ao filme na companhia de três amigos do Nerd Café que ainda não leram o livro, e a experiência para eles foi totalmente diferente da minha. por questão de justiça, deixarei as visões deles aqui em baixo para quem ainda não leu, saber como é para quem vai assistir ao filme sem o conhecimento da obra.

 

Hevila Mendes: Eu como gamer posso dizer que o filme é uma surra de referências. Muito divertido! Eu me senti como se estivesse jogando mesmo, só faltava o joystick. A minha sensação é: preciso ver novamente o filme. tem muita coisa que não deu pra ver. Preciso ver muitas outras vezes para poder acompanhar tudo. Pra mim já é um clássico.

 

Lidiane Monteiro: Uma das coisas ótimas foi a imersão e as cenas do ponto de vista do jogador. O espectador têm a sensação de estar jogando ou de sentir vontade de jogar. A mistura entre virtual e real coloca em reflexão questões importantes como os valores do jogador influenciam na forma e maneira de lidar com o jogo, como as pessoas se organizam e se unem para vencer. Não é apenas um jogo,e de certa forma não há apenas um jogador número 1, o número 1, é uma equipe. Embora só um jogador esteja ali no final. Outro ponto que me chamou atenção foi os dispositivos tecnológicos utilizados para realidade virtual e aumentada. Uma das coisas que ficaram bem colocadas e me chamaram a atenção foi a representação da fuga da realidade através dos games, fato que ocorre bastante na vida real, a crítica a esse fato foi muito boa.

 

Rafael Melo: Jogador Número 1 tem suas falhas, principalmente na construção da relação dos personagens, tudo ocorre de maneira muito rápida e você não chega a comprar determinadas relações, mas nada que seja extremamente prejudicial a trama e a grandiosidade de tudo que está ocorrendo ao mesmo tempo. Vira e mexe a cultura pop nos brinda com uma obra que entende o próprio universo em que está inserida referenciado-o de maneira competente e trazendo uma catarse de diversão e nostalgia: Scott Pilgrim, Pacific Rim, Detona Ralph e agora Jogador Número 1. De verdade, creio que esse filme tem tudo para ser um dos clássicos dessa geração, junto com Scott Pilgrim, já é o melhor filme de games já feito, mesmo ser ser baseado em um game, isso deve querer dizer alguma coisa, inclusive. Ao fim do filme eu estava pensando como Spielberg tinha conseguido, como ele tinha novamente me trazido com o filme o sentimento de magia e encantamento, tal qual sentia quando ligava a TV e via A História sem Fim e tantos outros. Aí alguns dirão: Peraí, como o cara fala algo assim de um filme com tantos erros, nota 8 no máximo e blá. E eu te respondo: os grandes clássicos da sessão da tarde que marcaram nossas vidas e até hoje nos faz amar cinema eram filmes nota 7 ou 8 e cheio de erros, mas continham algo a mais, continham magia e isso Spielberg tem de sobra.

 

Nota: 7 xícaras.

 

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