Cão de Guarda – Parte 5 – Final – Armadilha

Rafael Melo 11/8/2016

Por Matheus Olivaer

— PARTE 5 —

ARMADILHA

 

 

Diana não teve coragem de elevar a lanterna. Mas viu quando as patas traseiras incharam e absorveram os pelos escuros, transformando-se em pernas cabeludas. Frações de segundo depois, calças surradas pareceram emergir da própria pele. Porém ele continuou descalço.

 

– Aí, minha xerife. Te devo uma. Pesada. – Disse a voz rouca de Lobão. A mãozona suja do mendigo surgiu através do facho de luz.

 

Ela aceitou o apoio para se levantar. Sentia as pernas feitas de gelatina. O mendigo a olhava ainda com sorriso de cachorro.

 

– C-como…? Como isso é…?

 

– Possível? – Respondeu ele. – Não reclama comigo, guria. Eu não fiz as regras. Só recebi uma boa mão no jogo.

 

Diana, por falta de algo melhor pra fazer, massageou a testa. Cruzou os braços. Bateu um dos pés repetidas vezes.

 

– Ih… Lá vem… – Lobão comentou. A detetive explodiu.

 

– Você! VOCÊ seu…

 

– Calma.

 

– Você era um…!

 

– Lobisomem? – Ofereceu ele.

 

La mierda de un PERRO GIGANTE!!

 

– Calma lá…

 

– E nunca me disse nad… –

 

– Guria. – Lobão a cortou. – Você nunca perguntou.

 

HIJO DE UNA PUT… – Ela gritou com todas as forças, avançando no pescoço dele com os dedos em garra. Mas o mendigão a interrompeu secamente, estendendo o braço e tapando-lhe a boca inteira com uma das mãos. Ela crispou a face ainda mais ultrajada, mas ele levou o indicador da outra mão aos lábios.

 

– Chegou alguém lá na frente. Uma porta de carro se abrindo e… Fechou. P***quepariu… Agora a coisa vai engrossar…

 

Lobão soltou a policial.

 

– Que foi? – Ela sussurrou.

 

– Uma limusine. Acho que o chefe da vampirada chegou. Rápido, guria! Toma isso aqui e te esconde ali atrás daqueles caixotes! – Lobão esticou o braço direito e sua tatuagem tribal incandesceu. Poeira negra saiu dela e formou um poderoso revolver que se encaixou direto na mão dele.

 

A porto-riquenha não questionou. Em dois pulos estava atrás da cobertura indicada. Abriu o tambor da arma.

 

– Tá vazia, cara!

 

Mas a voz que respondeu já não era a mesma que ela se acostumara, vinda de Lobão. Quando levantou o olhar, sentiu sua bexiga quase desistindo de viver. A coisa – musculosa, de joelhos invertidos, pelos negros e da altura de um urso polar – olhou por cima do ombro. O olho direito, de um verde fluorescente, brilhou quando a voz gutural saiu da bocarra cheia de presas, pausada e esforçosa:

 

– A SUZY… NÃO PRECISA… DISSO… HEHE.

 

A porta da frente foi escancarada. As mesmas mãos invisíveis abriram o caminho, empurrando os objetos da barricada para as paredes laterais. Dois homens tiveram suas sombras recortadas pela luz exterior. Entraram na sala com as mãos estendidas, ainda empurrando os objetos para os lados com o poder de suas mentes. Em seguida, dois novos forasteiros entraram na sala. Diana viu que um deles era o moreno alto, o líder do bando lá fora. Mas o que entrou primeiro, ela desconhecia. Também de cabelos escuros, meia-idade. Grisalho, mas de um jeito elegante. O penteado para trás com gel combinava muito bem com o cavanhaque impecavelmente desenhado. O terno preto risca de giz, feito sob medida, era acompanhado de suspensórios brancos e um chapéu panamá. A figura tinha saído direto de um filme sobre mafiosos.

 

Lupetto! – Ele falou num sotaque italiano forçadíssimo, abrindo os braços como se cumprimentasse um velho amigo. – Finalmente consegui te chamar para conversar um pouco, ?

 

Diana acompanhava o diálogo através de uma fresta entre os caixotes, prendendo a respiração, a Magnum em punho. Uma gota de suor gelou o caminho da testa até a clavícula, se perdendo na jaqueta.

 

– DOM… GRR… GIULIO… – Grunhiu o monstro.

 

– Ah! Que felicidade que o signor já me conhece. Aqui ragazzo Marcus. Meu terno e meu chapéu, ? – E o vampiro magro deu um passo à frente, dobrou o casaco sobre o braço direito e apoiou lá também o chapéu.

 

O chefão mantinha o sorriso no rosto, mas Lobão não precisava dos dois olhos pra enxergar uma cilada. Especialmente quando dois sanguessugas telecinéticos lentamente o cercavam. Dom Giulio começou a dobrar uma manga da camisa preta de linho.

 

– Bem, bem, lupetto! Já que o signor está em sua forma de batalha, não creio que tenhamos muito espaço para negociação, ? No entanto, io sono generoso e gostaria de lhe fazer uma última proposta. Trabalhe pra mim. Proteja mio território e terá a cidade inteira a seus pés.

 

Se Lobão respondeu alguma coisa além de um rosnado, a policial não entendeu.

 

– É uma pena. – Suspirou o Dom. Passou a dobrar a manga esquerda. – Porque você não é tão esperto quanto pensa, capisce? Só precisei mandar matar umas p**** no mesmo lugar, e você veio correndo pra minha armadilha. Mas… Enfim. Você sabe o que os maratonistas dizem sobre o que mais lhes incomoda nas suas longas corridas, ?

 

Pausa. Segundos escorreram até que ele terminasse o origami na maldita camisa.

 

– Não são as subidas, as montanhas, ou mesmo as pedras… Não. É a areia nos sapatos.

 

Veias negras pulsaram em toda a pele visível do vampiro. Seus olhos se preencheram de escuridão e os dentes cresceram e formaram pontas. Porém, não só os dentes mudaram de tamanho. A garota ouviu ossos estalando e se realinhando. Viu os músculos do Dom incharem como os de um halterofilista. As roupas dele pareceram encolher, enquanto a distancia entre sua cabeça e o teto diminuía.

 

– Não é nada pessoal, lupet…  Não. Pensando bem… É pessoal .

 

“Rapazes!”, ele ia dizer.

 

“Diana!”, Lobão ia gritar.

 

Mas o que se viu foi um gorgolejar e olhos negros arregalados.

 

Uma ponta de madeira rompeu músculo, pele e linho.

 

Buonasera, Dom Giulio! – Disse Marcus, segurando o chefão numa gravata enquanto girava a estaca com a outra mão.

 

Diana não esperou uma melhor oportunidade: levantou atirando. Glifos se acenderam em brasa ao redor da arma.

 

O vampiro à sua esquerda recebeu o primeiro balaço místico no peito, sem reação. O tiro teve rumo certo e o coração da criatura pegou fogo. O resto do corpo acompanhou. Uma fração de segundo e a detetive já havia disparado no outro guarda-costas. Ele ergueu as mãos, elevando seu campo de força, mas o espírito da guerra que dava poder à arma estava de particular mal humor naquela noite. Estraçalhou a defesa e a caixa torácica do vampiro.

 

Quando olhou para Lobão, ele levantava a cabeça. Trazia entre os dentes um naco enorme de carne e osso em plena combustão. Dom Giulio, mal se sustentando em pé, tentava gritar. O pedaço do pulmão que estava à vista não conseguia segurar ar o bastante para enviar à traqueia. Ou talvez não fosse possível gritar sem costelas, coração e clavícula. Vai saber.

 

O chefão pegou fogo e definhou em cinzas. Lobão cuspiu, mas o que atingiu o chão foi um pouco de matéria escura fumegante.

 

Diana respirava pesadamente. Lobão olhou para ela e relaxou os ombros. Diana, porém, lembrava que havia mais alguém na sala. Com a cabeça, indicou uma das estantes viradas. Avançaram para lá lentamente, mas estacaram. Ouviram o som de uma latinha sendo aberta.

 

Marcus saiu detrás do móvel.

 

– Cerveja? – E estendeu a bebida para o lobisomem. Mas em seguida recuou a mão e disse: – Ah, perdão. – Tocou a lata com o indicador e o metal imediatamente congelou. – Agora sim. Telecinésia fina. Sabe como é: não dá pra jogar um carro em alguém como esses outros caras faziam, mas consigo alterar o movimento das moléculas.

 

Lobão e Diana se entreolharam.

 

– Cara, eu não quero brigar. Fico feliz de você ter acabado com a raça daquele idiota.  – Ele desfez com o pé um montinho de cinzas. – Ele ficava falando italiano e fazia a gente chamar ele de “Dom”… O filho da p**** nasceu no Havaí!

 

– Qual é a tua, hombre? – Disse a detetive, ainda com a arma em riste.

 

Marcus depositou a latinha na mesa.

 

– Meu finado mestre era uma criatura de outro século. Glorificava o crime e só conseguia entender expansão como território. Poder para ele era igual à força.

 

– E você não?

 

– Eu? – Marcus olhou as unhas, despreocupado. – Nah… O meu é diferente. Informação é poder. E drogas… Pff… Ter que lidar com degenerados… Machucar criancinhas… E manter a polícia na cola da nossa organização… Francamente. Eu valorizo outras coisas.

 

– Tipo o quê? – Interpelou a policial.

 

– Conexões. – Disse o vampiro, vestindo o chapéu panamá num gesto teatral. – E tendo em vista meus planos para melhorar o bairro do nosso amigo aqui, creio que poderemos ganhar muito com uma relação amistosa.

 

– GRR… DROGAS? – Rosnou Lobão.

 

– Ah não, meu caro. Comida delivery.

 

A detetive inclinou a cabeça, confusa.

 

– GRRHMF… BOA? – Conseguiu articular o lobisomem.

 

– Coisa fina. Encomendada via aplicativo de celular. É um mercado em expansão.

 

Lobão encolheu até sua forma humana.

 

– Falou. Tô dentro. – Respondeu.

 

– O QUE?! – Gritou a policial.

 

Lobão acendeu um cigarro.

 

– Qualé, guria? Vai ter comida boa pro povão ao invés de crack e tu tá reclamando?

 

Diana não conseguiu formular um contra-argumento.

 

– Excelente! – Exclamou Marcus. – Agora, se vocês dois puderem me acompanhar, teremos alguns associados a convencer da minha nova posição na organização. Senhor Lobo, poderia, por gentileza reassumir sua forma de guerra? Já a senhorita policial, seria um prazer se viesse conosco. Agora que está imersa em assuntos sobrenaturais… Bem… Não há mais retorno.

 

Aquelas palavras fizeram a espinha da policia gelar. Lobão murmurou um “Desculpa, guria” e seus pelos negros começaram a crescer novamente. Diana olhou para a Magnum que segurava, ornamentada com símbolos que ela nunca vira na vida. Suspirou.

 

Do lado de fora vários homens pálidos aguardavam em prontidão, tensos e armados. Suas ordens foram as de não interferir. A promessa era um banho de sangue no Cave Club em comemoração pela morte do protetor lupino do bairro. No entanto, quando a porta abriu, gritaram de dor. Suas armas arderam em brasa. Impossível segurá-las. Marcus saiu do escritório, queixo erguido.

 

– Senhores, é com pesar que informo que nosso antigo benfeitor não está mais entre nós. Porém, nossa organização é forte e continua firme, rumando em direção a um tempo mais moderno e cheio de progresso.

 

Os vampiros rosnaram. Lobão passou pela porta, abaixando a cabeça e meio de lado, para caber na abertura. Diana foi atrás, com a Suzy em punho.

 

– Apresento-lhes o mais novo membro de nossa família. Este é o Sr. Lobão.

 

O lobisomem estendeu o terno risca de giz sobre os ombros de Marcus. E ainda ajustou a gola.

 

Podia-se ouvir uma mosca voando pelo recinto.

 

– Não preciso comentar que esta bela dama ao nosso lado está fora do alcance de vocês a partir de agora. – E como que para reforçar, Diana cruzou os braços e puxou o cão da arma. Viu vários capangas tremerem quando as runas da arma incandesceram.

 

Alguma dúvida, reclamação ou sugestão? – Disse Marcus, quase saltitante. – Não? Excelente! Então lhes aviso que haverá nova reunião amanhã à meia noite. Discutiremos nossas novas políticas. Dispensados.

 

Os pálidos se dispersaram lentamente. Lobão voltou à forma humana, tirou a touca vermelha de um dos bolsos da calça e a pôs na cabeça. Levou um cigarro à boca. Marcus estalou os dedos e a ponta do fumo acendeu.

 

– Obviamente o senhor também está convidado para nossa pequena reunião. Será… Interessante. Acho que o senhor adorará nossa mesa de frios.

 

– Mesa de frios, é? – Disse o mendigo. Deu uma longa baforada – Garoto… Acho que você tem futuro.

 

 

* * * * *

 

Eeeeee encerramos a primeira mini-série do Commission Literária! =D

 

E aí? Gostaram? Amaram? Querem minha cabeça? Hauhauhaua!

 

A verdade é que não tinha como fechar uma história com o Lobão que não fosse bastante insólita. Devo admitir que me afeiçoei a esses personagens.  E engraçado ver como as ideias vão evoluindo com o tempo… =)

 

Bom… Espero que vocês tenham gostado da viagem! “Cão de Guarda” fica por aqui!

Gostou do conto? Visite o site do Matheus: http://www.matheusolivaer.com/

Tá cheio de coisa bacana e que indicamos! Corre lá. 😉

 

Ou será que não? Hehehe…

 

Abraços!

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