Cão de Guarda – Parte 4 – PORTO

Rafael Melo 10/5/2016

Por Matheus Olivaer

— PARTE 4 —

PORTO

 

 

 

– Aí, guria… Me ajuda!… Dessa vez sou eu que tô na m-…

 

Tiros. Muitos tiros. A voz rouca de Lobão – ofegante e grunhida de dor – foi interrompida. A ligação caiu. Diana pulou da cama, os olhos arregalados, suando. Lobão nunca pedia ajuda.

 

Não daquele jeito.

 

Antes que pudesse perceber já vestira seus jeans e a jaqueta de couro, chaves do carro na mão. Desceu correndo os degraus do prédio, a mente acelerada, o coração saindo pela boca. No quê aquele esquisito havia se metido?

 

Não sabia se ligava para a central, para seu o chefe, ou tentava retornar a chamada. Não, retornar não. Já fizera isso. Desligado. Rastrear. Isso. Ligou as sirenes e saiu cantando pneu para a Delegacia. O rádio ligou automaticamente quando o carro deu partida:

 

– …odas as unidades. 10-71 em ocorrência na área do porto, Doca 113. Repetindo…

 

“Tiroteio? Deve ser lá!”.

 

– Bravo 27 na escuta. Rumando para reconhecimento. Câmbio. – Disse a detetive pelo rádio, mudando a direção do veículo.

 

– Entendido Bravo 27. Em prontidão para pedido de reforços. Cuidado, Diana. Câmbio. – Respondeu a voz da responsável pela comunicação do distrito, já num canal privado.

 

– Positivo. Pode deixar, Marta.

 

– Tô falando sério, Di. Vê se não se mete em merda. Câmbio.

 

A detetive sorriu. Ultrapassou um caminhão de lixo a quase 100 km/h e exibiu o dedo médio para o motorista.

 

– Certo, mama.  – Ironizou. – Você só tá preocupada que eu não pague o chopp de amanhã.

 

Ouviu uma respiração funda no outro lado da linha. Sabia o que a amiga estava para fazer, mas precisava tranquiliza-la. E chegar rápido. Precisava saber qual o problema do mendigo antes de todos. Limpar a barra pelos dois. Tinha que dar tempo.

 

Parker e Snart estão há 15 minutos do local. Boa sorte, Di. – Respondeu a voz no rádio.

 

Mierda! – Bateu no volante, tão logo o aparelho silenciou. Teria uma janela muito pequena para agir. Por outro lado, sentia um alívio culpado por não ter que encarar aquela situação sozinha. Sabia que uma noite como aquela aconteceria, mais cedo ou mais tarde. Lobão lhe custaria a carreira.

 

Diminuiu a velocidade. Odiava ir ao porto. Chauvinistas e tarados por toda a parte. Pouco importava que ela era uma agente da lei. Parou à frente da cancela e mostrou o distintivo, esperando o vigia liberar sua passagem. Nada. Levantou uma sobrancelha. Estreitou os olhos, perscrutando ao redor, para além dos faróis amarelos do carro. Ninguém. Conferiu o pente da sua 9mm e destravou-a. O porto nunca ficava vazio. Em hora nenhuma.

 

Despedaçou a barra de madeira com o carro e dirigiu pelas ruas de contêineres até a Doca 113. Desligou os faróis e circulou pelo local. Felizmente, estava com as revisões em dia, e seguiu quase sem barulho. Os segundos se passaram tão vazios que Diana chegou a questionar os súbitos chamados que recebera. Mas então os viu: homens vestidos de preto. Vários. Jovens. Truculentos. Armados. À frente do galpão principal.

 

A porto-riquenha respirou fundo. Olhou para o banco de trás e viu sua mala esportiva. Alcançou o colete à prova de balas e o vestiu. Apanhou também um cilindro negro e… Seria mesmo necessário? Decidiu não arriscar. Encaixou o silenciador na pistola e tirou a escopeta do fundo da mala. Pouca coisa assustava mais os vagabundos do que uma boa e velha 12. Tocou os bolsos da jaqueta, onde carregava alguns outros apetrechos. Tudo em ordem.

 

Esgueirou-se, evitando os postes de luz fraca, fazendo das sombras o seu caminho. Tirou um pequeno binóculo da jaqueta e contou seis indivíduos na frente do armazém. Um voltava dos fundos. Aumentou o zoom do aparelho. Todos eram tão pálidos… Ou seria a iluminação?

 

O rapaz solitário sacudia a cabeça o tempo todo, num tique bizarro. Falou com um outro, moreno e magro, que estava no centro do grupo de brutamontes. Diana achou umas brechas entre as cabeças dos capangas e conseguiu ler os lábios do líder.

 

– E aí, Mike? Tem alguma chance de ele fugir ali por trás?

 

O vigia dos espasmos estava de costas. O líder continuou.

 

– Excelente! E por cima? Tem como sair por lá?

 

O jovem se encolheu, balançando a arma num gesto desajeitado. Os outros riram e soltaram gracinhas.

 

– Então vá lá, meu jovem. Ou vai querer que o Dom ache que você não fez sua parte?

 

O rapaz se tremeu todo e os grandalhões riram ainda mais. Enquanto ele voltou para os fundos da construção o líder disse jocosamente:

 

– Sempre sacaneando o novato, hein? Vocês não prestam mesmo.

 

Diana seguiu o vigia com os olhos. Viu quando ele sumiu da linha de visão do grupo e, segundos depois, apareceu gradativamente no topo da construção. Uma escada. A detetive conferiu seu relógio. O tempo voava. Aqueles caras tinham encurralado alguém no armazém, provavelmente no escritório interno, e agora esperavam o chefe chegar para lidar com o sujeito. Ela tinha alguma ideia de quem estava preso lá dentro…

 

Viu o novato se abaixar, esfregar o braço em alguma coisa e olhar fixamente para baixo. Uma claraboia. Sua entrada. Chegou à parte detrás do galpão e escalou os degraus metálicos instalados na parede. Até ali suas deduções foram certeiras. Foi difícil subir sem fazer barulho enquanto segurava a escopeta, mas conseguiu. Ou o vigia estava nervoso demais para notá-la.

 

Alcançou o parapeito e levantou a cabeça com extremo cuidado. O sujeito olhava para os arredores e fumava um cigarro. Estava de costas para ela e segurava o rifle frouxamente. Era um garoto. Não tinha nem 18 anos. Diana engoliu em seco.

 

Depositou a arma no chão e terminou a subida com todo o cuidado. Uma pancada na cabeça seria o suficiente? Mas e se errasse a dose? A vida real não era como nos filmes, e uma coronhada podia gerar lesões bem sérias. Por outro lado, mesmo sendo um recruta, seu oponente lhe mataria sem remorso se tivesse chance. Trincou os dentes e praguejou em pensamento. Olhou o caminho entre os dois. Cimento cru e alguns encanamentos de metal. Felizmente nenhum cascalho. Estalou o pescoço. Respirou fundo. Avançou.

 

Mike se contorceu em mais um espasmo. Jurava ter ouvido algo.

 

– Calaboca e fica quieto. Tô segurando uma 12 nas tuas costas! – Saiu a voz da policial: rápida, baixa e sem chance de questionamentos.

 

Mas o vigia não reagiu como ela esperava.

 

Diana viu o rapaz olhar por sobre o ombro e sua expressão mudar muito velozmente de surpresa para incredulidade, até… Diversão?

 

No segundo seguinte ele estava de frente. A mão esquerda segurava o cano da escopeta para cima. A direita se fechou em aperto férreo na garganta da policial.

 

Diana arregalou os olhos de susto e dor. E então seu coração quase parou. Os olhos dele. Completamente negros e sem vida, como os de um predador dos mares. Os dentes… Afiados! Todos eles! Mas os caninos superiores eram maiores, como os de um tigre. A pele era muito pálida, completamente marcada por veias negras que se enramavam a partir do pescoço.

 

Não foi coragem. Foi puro instinto de sobrevivência. Chutou o cara nas bolas. O punho aberto voou de baixo para cima, num golpe de Krav Magá. Ouviu o som do nariz sendo esmigalhado.

 

A criatura urrou e a soltou, uma mão em cada ponto atingido. Com o tranco, ele andou dois passos para trás, mas Diana caiu de costas no chão. A arma foi catapultada para fora de suas vistas, mas não disparou ao cair.

 

Mike fuzilou a garota com os olhos. Passou do orgulho ferido para o ódio. Em seu rosto transfigurado nenhum sangue denunciava a cartilagem quebrada. Saltou sobre a jugular da intrusa.

 

Diana descarregou o pente da 9mm mais rápido do que acreditava ser capaz.

 

O vampiro…  Dios mío! Un vampiro!… Caiu sobre ela. Mas bastou empurrá-lo para o lado e sentiu que ele ficava mais leve. Com o som de uma fornalha sendo apagada, o corpo se incendiou e se desfez ao redor de sua mão.

 

O bendito instinto chutou-a mais uma vez. Os outros seis ouviram tudo! Rolou para as sombras procurando a escopeta, mas nada. Ofegava. Afastou o cabelo do rosto. Tapou a própria boca. Teve certeza que sentira o coração nos dedos, tentando sair. Dios! Dios! Prendeu a respiração e apurou os ouvidos. Dios! DIOS! QUE P**** ERA AQUELA!?!

 

Silêncio.

 

A não ser pela manada de elefantes sapateando em seu peito. Talvez o… Dios!… Talvez o vampiro normalmente já urrasse tanto quanto tinha espasmos? Graças a Deus colocara o silenciador na pistola! Calma! Respire! Respire! SE ACALME!

 

Apalpou o jeans, em busca de outro pente para a Glock, e sentiu o celular. Lobão! A lembrança do porquê enfrentava aquela situação bizarra no c* da madrugada ajudou a realinhar sua mente. E os outros dois tiras? Por que não haviam chegado ainda?

 

Não dava mais para esperar. Tinha que agir. Expirou. Inspirou. Expirou.

 

Caminhou até a claraboia. No caminho, nenhum rastro do monstro que acabara de enfrentar. O vidro empoeirado mostrava o interior de um escritório. Mas parecia que um tornado havia atingido o local. Mesas e cadeiras reviradas, papéis para todo lado. Sangue.

 

Impossível saber se seu amigo estava lá. Mas era sua entrada. A janela de vidro tinha grade embutida e, como era normal naquele tipo de construção, fora afixada com parafusos, e não cimento. Sacou da jaqueta um canivete enorme e expôs a chave de fenda. Sorriu. Estava no controle novamente. Algumas das cabeças metálicas apresentaram resistência, mas foram derrotadas. Seu corpo talhado em anos de artes marciais venceram os três metros até o chão sem dificuldades. Ao tocar o chão, agachou completamente para distribuir o impacto, e, no escuro, tentou perceber os arredores.

 

Um ganido fraco chamou sua atenção. Empunhou a lanterna de bolso como apoio para a Glock e arriscou acendê-la. Quase se jogou para cima da mesa virada com o susto. Um cão enorme e negro estava jogado no canto da sala. Mas estava inofensivo. Era dele o sangue que escorria pelo chão da sala. Respirava lenta e pesadamente, o uivo fino e doído cada vez que o peitoral se elevava. A mesa na qual a policial se encostava bloqueava a porta. Duas prateleiras viradas completavam a barricada. Estava sozinha com o cachorro. Quem diabos fechara aquela entrada?

 

Olhou ao redor e tremeu. Não. Não era possível. Mas… Sua mente de detetive clareou as coisas. Vira um vampiro agora a pouco, não vira? Não havia mais ninguém ali. Os parafusos mostravam que ela fora a única a passar pela claraboia. Não havia passagem secreta, pois o escritório acabava na parede exterior.

 

Caminhou pé ante pé até o animal. Era grande como um mastim, mas parecia frágil naquele momento. Ao menos seis ferimentos à bala na lateral do corpo que ela conseguia ver. E… Espera… “O que é isso?”, pensou ela. “Tá saindo… Fumaça dos ferimentos? Que p**** é essa?”.

 

Subiu a lanterna até a cara do animal e pulou para trás novamente. Ele tinha uma cicatriz no olho esquerdo. EXATAMENTE no olho esquerdo. Idêntica em forma e tamanho à de Lobão. A detetive franziu a testa. Dois objetos estavam jogados ao lado do bicho. Um celular barato. E uma touca vermelha.

 

Diana se afastou, balançando a cabeça. Não! Aquilo era demais! Como assim!?

 

Ela ouviu o cachorro farejando e ganindo mais alto. No silêncio seguinte, Diana ouviu vários chiados bem leves, como se algo fervesse. O cheiro de cachorro molhado que inundava à sala se misturava ao odor ferruginoso do sangue.

 

Expire. Inspire. Expire. Hora de agir.

 

Diana sacou novamente o canivete e expôs uma faca. Ajoelhou-se ao lado do cão, pensando “Devo estar ficando louca! É isso!”. Mas o que falou foi:

 

– Ok, seu hijo de p***… Se você me morder…

 

O cachorro abanou o rabo, quase sem forças, e pôs a língua seca para fora da boca. Contraíu-se ao toque dela em seu dorso. Pareceu prender a respiração.

 

Diana prendeu a lanterninha entre os dentes e meteu a faca na ferida que lhe pareceu mais grave. Manteve o buraco aberto com os dedos enquanto cavoucou com a lâmina até esbarrar em algo sólido. Conseguiu rolá-lo para cima e para fora. O cão gemeu. Quando a bala finalmente chegou à superfície, o chiado de fervura e a fumaça exalada se intensificaram. Tão logo ela extraiu o objeto, cessaram. O metal ensanguentado era branco e límpido. Prata.

 

O cão prendeu a respiração novamente. Diana enxugou o suor frio da testa. E repetiu o processo mais cinco vezes.

 

Quando a última bala foi retirada, o animal suspirou. A policial sentou, exausta. Mas em seguida levantou correndo, foi até um canto da sala e vomitou. Engraçado. Não lembrava de ter comido amendoim.

 

Olhou novamente para o bicho e viu as feridas se fechando. Claro. Por que não? Vomitou novamente.

 

O cachorro suspirou longamente e ergueu a cabeça. Seu olho direito reluziu no facho de luz que ela segurava. O animal lutou para se levantar, mas a cada segundo parecia mais forte. Ergueu-se sobre as quatro patas, ficando mais alto que a garota. Sorriu. Daquele jeito de cachorro, mas sorriu.

 

E começou a crescer.

* * * * *

Essa história acaba na próxima parte – e aposto um saco de ração que você VAI se surpreender! =D

 Não perca!!

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