Cão de Guarda – Parte 3 – Vampiro

Paulo Silva 09/24/2016

Por Matheus Olivaer

— PARTE 3 —

VAMPIRO

 

 

O rapaz loiro rosnou em desafio, todos os dentes afiados se projetando da boca. Os olhos completamente negros. Lábios empapados de sangue ainda quente. Era um monstro. Um tubarão disfarçado de homem. Um vampiro.

 

Ele e seu parceiro de caçada se refestelavam nos pulsos de uma prostituta, a privacidade daquele beco sujo garantida pela propina ao dono do Cave Club. O primeiro vampiro apurou os sentidos, perscrutando a escuridão como se fosse dia. Lá de fora, na rua mal iluminada, ouviu passos. Sentiu forte cheiro de roupa suja e cachorro molhado. Uma latinha de cerveja rolou em sua direção. Devia ser só um mendigo com seu vira-lata, revirando o lixo no lugar errado.

 

– Sai daqui, mané! Se quiser viver é tua chance! – Grunhiu. O jovem de cabelos negros afastou sua mordida da mulher e também olhou para a rua.

 

O silêncio só aumentou a tensão dos dois. Até que um homem alto e de roupas muito gastas apareceu sob a luz fraca do poste. O olho esquerdo vazado no rosto duro apenas reforçava seu aspecto ameaçador. Ele caminhou passo a passo, até bloquear a saído beco com seu corpanzil. Acendeu um cigarro, protegendo a chama do isqueiro barato com uma das mãos.

 

– Cês devem ser novos por aqui, né? Então vou logo passar o esquema. – Ele disse, casualmente.

 

Os dois seres da noite se crisparam, em posição de combate, elétricos.

 

– Tô pouco me ferrando pra quem vocês são. Sei que são sanguessugas, mas isso é problema de vocês. Agora eu sou o lobo que manda nessa merda aqui. Tão me entendendo?

 

O vampiro que ainda segurava a prostituta nos braços engoliu em seco. Lobo?! P***quepariu…

 

O mendigo continuou.

 

– Não sei quem vocês servem ou qual é a de vocês. Tô cagando. Não sei o que seu pessoal tem na cabeça pra querer andar por aqui, mas isso não é problema meu. – Expirou uma boa dose de fumaça.

 

– Agora… Se alguém morre no meu pedaço, vira meu problema. Tão sacando? Vocês são vampiros, e vampiros são espertos. Então só vou dizer uma vez: Solta essa moça aí e deixa uma boa gorjeta pra ela. Não venham caçar quando não puderem se controlar. E se falarem alguma merda sobre isso com alguém… Ou vierem no meu pedaço de novo sem me avisar… Eu vou enrabar vocês e depois arrancar suas cabeças. Fui claro?

 

Os rapazes não conseguiam acreditar. Não tinham ideia do que estava acontecendo, mas o estranho era confiante demais para estar brincando. O fedor de álcool ardia nas narinas, mas ele não parecia nem um pouco bêbado. E, além disso, tinha aquela… Aura… Sei lá! Algo estranho e esmagador que os fazia ter vontade de sair correndo. Predador. Seria um lobisomem mesmo? Mas… No meio da cidade?

 

O loiro resolveu agir. Era um vampiro, ora merda! Uma criatura das trevas! Não tinha medo de ninguém! Pra o diabo com aquele mendigo de bosta! Era rápido como um raio antes, com suas facas. Depois de morto, então, era imbatível!

 

Ordenou ao seu coração atrofiado que bombeasse o sangue roubado para os músculos. O poder lhe preencheu em ondas de prazer e morte. Numa fração de segundos sacou as lâminas ocultas no cinto e correu, mirando o pescoço do estranho!

 

Levou um tiro na cara antes de dar o segundo passo.

 

O vampiro mais calmo da dupla percebeu o clarão e o barulho absurdo da explosão.  Mas o entendimento só veio quando viu os miolos escorrendo aos seus pés. Jorrando de um rombo do tamanho de uma maçã. Também não vira muitas pessoas baleadas, mas sabia que as feridas não costumavam brilhar incandescentes. Se fosse possível, teria ficado ainda mais pálido. O estranho permanecia com a mão esticada, apontando um revolver enorme em sua direção. Completamente estável, mesmo com o coice elefantino da arma.

 

-Tsc, tsc, tsc… Sabe… Não se corre pra cima da Suzy sem dizer “oi”. Você devia dizer “oi” pra Suzy.

 

O rapaz de cabelos escuros permaneceu boquiaberto.

 

– FALA “OI” PRA SUZY C******! – Urrou o mendigo.

 

– O-oi!… Oi, Suzy! – Engasgou o jovem, pulando de susto.

 

– Muito bem. Você parece um garoto mais esperto que esse babaca aí. Essa belezinha aqui – E balançou levemente o revólver, como se precisasse enfatizar do quê falava –  é uma Colt Anaconda .44 Magnum ritualizada. Tá vendo essas runas brilhantes aqui? Pois é. Tem um espírito da guerra muito nervoso preso aqui dentro. E ele adora o barulho que a Suzy faz. Ganhei isso aqui de uns chegados por ter dado uma força numas tretas deles lá. Sempre fui meio solitário. Só quero ficar de boas no meu pedaço, mas aceitei o presente. Sabe como é? Mesmo pra um Lobão, é bom poder contar com reforços, capiche?

 

O maltrapilho puxou calmamente o cão da arma, fazendo o tambor girar. O vampiro engoliu em seco de novo.

 

– Então, o seguinte é esse: Talvez esse teu amigo aí sobreviva. Tu vai lamber a ferida dessa menina, vai deixar ela aí com o que cês tiverem na carteira. Tu vai pegar esse esquentadinho galego aí e levar pra o diabo que o carregue. Problema teu. E nunca mais vai me encher o saco de novo, tá beleza? A não ser que você queria testar sua sorte… Punk. – Riu, selvagem, da própria tentativa de imitar o Clint Eastwood.

 

O vampiro captou a referência. Lambeu os pulso da garota, fazendo com que a carne se fechasse – impressionado porque o mendigo conhecia esse detalhe sobrenatural – e depositou-a cuidadosamente no chão. Seus olhos voltaram às cores normais: branco e castanho. Os dentes regrediram ao formato humano, inclusive os caninos. Depois cautelosamente apanhou um bolo de notas do bolso da calça e os depositou na bolsa prostituta. Mostrou as mãos abertas.

 

Lobão deu um passo pro lado e relaxou a arma. Com o canto do olho, o vampiro viu a Magnum virar poeira e ser absorvida por uma tatuagem tribal no braço maciço do indigente. Com horror, entendeu que Lobão não achava necessária a arma pra acabar com ele. Limpou o rosto sangrento na manga da camisa preta que vestia, e rumou rua acima.

 

– Ei, moleque! – O rapaz gelou. Lobão continuou – Vai levar seu amigo não?

 

– Que amigo? Não conheço ninguém por aqui, não senhor. – Respondeu o vampiro.

 

– Hehe… Garoto esperto… Vai lá, vai. Vai achar um raio de sol pra ficar brilhando. Hehe.

 

Marcus foi embora o mais rápido que pôde. Lobão olhou para o corpo ensanguentado no beco e viu que alguns pedaços do crânio começavam a crescer novamente. Tinha algumas dúvidas a sanar sobre aqueles incidentes no Cave Clube e agora era óbvio que os sanguessugas estavam envolvidos. Arreganhou os dentes num sorriso bizarro. Aquilo seria divertido.

 

Não era todo dia que dava para usar a Suzy e também suas garras num mesmo bandido.

 

 

 

* * * * *

 

E na próxima parte… O que acontece quando é o guardião quem cai numa armadilha e precisa ser salvo?

Não perca a primeira parte da explosiva conclusão dessa história!!!

=D

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