A terra dos mortos – T01E01 – Hellcife

Paulo Silva 03/8/2016

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Hellcife

 

Nada desaba de uma vez, é um lento desaparecer. Há muito, uma bomba relógio foi posta em algum lugar dentro do homem esperando, pacientemente, pelo dia de explodir. Era de se esperar que isso acontecesse, afinal a mola propulsora do ser humano sempre foi o ódio, a ganância e o egoísmo. Tais defeitos colocaram-nos na condição de reféns por toda a nossa existência, fazendo com que lutássemos contra nós mesmos em busca de poder. Ao passo que um homem exercia dominação sobre o outro, era automaticamente dominado por um mal inexplicável que residia dentro de si, só que adormecido. Esse mal emergiu e extirpou o que de bom restava no nosso interior, e nos levou à condição de subespécie. Hoje, o mundo está diferente. A natureza que nos foi presenteada em perfeito estado está entregue às trassas. Resta saber se ainda somos capazes de nos unir pelo bem comum, como não fazemos há centenas de anos.

 

Esqueci de me apresentar. Meu nome é Paulo. Irei poupá-los do meu sobrenome, afinal, não sobraram muitos humanos, talvez não exista outro com esse nome. Eu sou sobrevivente do apocalipse zumbi que assolou a nossa existência e irei contá-los como tudo aconteceu:

 

Tudo começou em uma tarde ensolarada no Recife – o calor estava infernal! – O suor escorria pelo meu rosto como um cubo de gelo derrete fora do seu ambiente ideal. Eu estava fora do meu ambiente ideal. Nunca fui muito sociável, preferia a paz do meu quarto trancado e a companhia dos livros ou das séries de TV. Mas nesse dia eu estava a caminho de uma livraria no Recife Antigo – sobre o Recife Antigo: que lugar maravilhoso! – Ao chegar na livraria, senti uma sensação de alívio quando o ar gelado do ambiente beijou meu rosto. Olhei em volta, respirei fundo e peguei um livro pra ler – aquele era o meu segundo melhor lugar para estar – Enquanto lia, eu me transportava para estória, meu corpo estava ali, mas minha cabeça em outro lugar, nada era capaz de tirar minha atenção. Nada! até aquela tarde…

 

O caos

 

De repente, um estrondo se fez ouvir vindo de fora do estabelecimento, meus ouvidos foram tomados por um zumbido irritante, já não conseguia ouvir mais nada além disso. Assim como todos que estavam ali, corri para fora na intenção de ver o que estava ocorrendo e me deparei com o Paço Alfândega em ruínas e, ao chão, um avião em chamas.  Aos poucos, minha audição retornou e, estarrecido, percebi que a situação era de caos total. Os carros estavam desgovernados batendo e caindo no rio, as pessoas corriam feito loucas sem destino e outras estavam mortas.

 

Tudo fica mais estranho

 

Eu olhava em todas as direções buscando compreender aquela situação até que avistei um homem caído no chão, morto – eu acho – e o vi tentando erguer a cabeça – seu corpo parecia destroçado e ainda assim ele estava vivo? como assim? – Senhor – gritei buscando a atenção do homem, achava que podia ajudá-lo, mas antes mesmo que pudesse me aproximar do homem fui surpreendido com um carro em alta velocidade na minha direção. Consegui escapar do carro que bateu logo a frente em uma parede. Eu estava muito assustado e tudo que queria era sair dali, então fui até o carro e vi o motorista morto com a cabeça ensanguentada encostada no volante. O empurrei para fora e tomei o veículo visando voltar para casa. Dirigi cuidadosamente pelas ruas do Recife, a destruição estava por todos os lados, mas o que me chamou mais atenção naquele momento foi uma cena que avistei nos primeiros metros que rodei com o carro: quando olhei para o avião que havia destroçado o Paço Alfândega, percebi pessoas saindo de dentro dele; elas cambaleavam, o que era de se esperar, visto que acabaram de sofrer um acidente, no entanto eu me perguntei como elas sobreviveram a tal acidente?… Enquanto me perguntava, o grupo se abaixou diante de alguns corpos e começaram a, aparentemente, alimentar-se deles ferozmente – mas como isso podia ser verdade? –

 

O que era aquilo???

 

Atônito, cantei pneu até a Boa Vista. Lá, eu parei o carro. Estava muito nervoso, com a respiração ofegante e chorando. As lágrimas escorriam a todo vapor – será que eu estava vivendo um apocalipse zumbi? as estórias que tanto li e assisti poderiam se tornar realidade? O que eu deveria fazer agora? – Lembrei de quando eu era criança e minha mãe me deu uma bolinha de borracha – essa bolinha era como um amuleto pra mim, estava sempre com ela – e me disse para apertá-la sempre que estivesse nervoso ou estressado e qualquer preocupação iria embora. Foi o que fiz e, naquele momento, até que funcionou. Voltei a dirigir, novamente devagar para não ser surpreendido no caminho.

 

O caos se apresentava cada vez mais ao longo do caminho…

 

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Ainda na Boa Vista vi que boa parte das pessoas que estavam no chão – provavelmente mortas – levantavam-se aos poucos como zumbis e caminhavam lentamente em busca de corpos para tragar. As criaturas tinham um olhar vidrado, aspecto pálido e gemiam. Todas eram lentas, certamente, porque sofreram acidente, morreram e se transformaram. Eu tremia quando os olhava. Passei pelo Derby em chamas e cheio de corpos e zumbis na praça. Na Caxangá, alguns carros e ônibus batidos, paradas em retalhos e poucas pessoas ainda caídas. Enfim, cheguei ao meu bairro, a Várzea. Na entrada do bairro, percebi um grupo ao longe saindo da universidade federal que há por lá. Eram estudantes com bolsas nas costas, porém cambaleando – imaginei que fossem mais zumbis – Perto deles estava um velho segurança da localidade, este caminhava normal. O homem viu que o grupo se aproximava e, instantaneamente, sacou uma arma. Eu estava longe ainda, mas conseguia ver o segurança atirando nas criaturas. Um, dois, três, quatro, cinco tiros no corpo e nada! Eles continuavam andando e estavam cada vez mais perto do homem. Foi quando eu pisei fundo pela rua até que atropelei parte do grupo antes que eles alcançassem o velho – no momento do atropelamento um dos mortos vivos, por uma fração de segundos, ficou de frente pra mim, separados apenas pelo vidro e eu constatei que conhecia aquele ex ser humano – se assim posso dizer – era um colega, Júnior, o qual chamávamos de Rato – apelido bem sugestivo dada a sua aparência – Não nos dávamos muito bem, porém eu senti por ele, afinal o que ele havia se tornado não era desse mundo – na verdade era! mas eu ainda não sabia – Num impulso gritei pro velho -Entre agoooora!! – ele entrou rapidamente e eu corri pra casa. Em casa, procurei por minha família, desesperado, mas não havia ninguém ali. Não havia nem traço de alguém ali. A dúvida do que tinha acontecido com eles me corroía por dentro. Em seguida peguei uma mochila, enchi rapidamente com suprimentos e, junto ao velho, fui a casa de um amigo, ali próximo.

 

Um momento de alívio

 

O amigo se chamava Léo, e ele estava acompanhado dos meus outros amigos: Arthur, Mendes, Marques, Wesley e o Silva. Em um sinal de alívio os abracei rapidamente, um por um, e logo sentamos para uma séria conversa a respeito do caos que tomou o Recife. Léo, o dono da casa, estava sentado, calado. Wesley de pé, andando pra lá e pra cá, preocupado. Mendes não parava de chorar, isso somado a sua aparência engraçada, não era muito agradável de se ver. Enquanto isso, Arthur discursava tranquilamente me contando o que tinha acontecido por lá. Ele me disse que estava dormindo quando um barulho horrível invadiu seu quarto e o fez despertar. Em seguida ele constatou o caos na praça, perto de onde morava e correu pra casa de Léo. Depois, ouvimos o velho segurança que contou que estava cuidando dos estabelecimentos no local quando algumas pessoas, de repente, perderam o ar. Ele disse que elas vomitaram um líquido branco estranho e aos poucos morreram. Depois levantavam como zumbis. Por último eu falei o que havia ocorrido comigo. Decidimos ir à vila militar, próximo a minha casa em busca de armamento numa brigada. Wesley tinha a chave, só precisávamos chegar lá a salvos. Quando íamos saindo, ouvimos uma música se aproximando, cada vez mais alta, voz e violão que dizia:

Yesterday, all my troubles seemed so far away, now it looks as though they’re here to stay
Oh, I believe in yesterday…

Continua na próxima semana..

 

Esse foi o primeiro episódio da série literária do Nerd Café, o que acharam? Comenta aí, interage com a gente ^^ Semana que vem tem mais.

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