A Lenda das Cinco Espadas – Parte 2 de 2

Matheus Olivaer 08/21/2017

Ah, não! Não! Não! – Ouvi Myra gritando.

 

– Senhor dos Céus, suplico-te agora, um pouco de luz nesta escura hora. – Eu rezei, e um globo de luz dourada surgiu sobre minha cabeça. Estávamos dentro de um fosso de pedra, acorrentados ao chão, e a água agora batia nos nossos ombros.

 

Myra! Pegue a minha faca! Você tem que cortar minha armadura! – Eu gritei. Mas ela estava aterrorizada demais para me ouvir.

 

Eu não sei nadar… Eu não sei nadar… – Finalmente entendi o que ela balbuciava.  A água tocou meu queixo. Eu não tinha tempo para pensar.

 

Fica calma!  Eu gritei, e saquei minha espada de madeira. A lâmina era feita de um tronco escuro cheio de veias que brilhavam azuis-claras. “Tronco-de-estrela” era como o povo da minha vila chamava aquele tipo de árvore. Mas minha espada era ainda mais especial. Eu mergulhei e golpeei minha corrente com toda a força. Faíscas azuis voaram da lâmina quando ela tocou o metal, mas a mágica da minha espada era mais poderosa que a maldição do ferro negro. Uma vez livre, saquei minha faca de almoço e cortei as tiras de couro do peito e pernas da minha armadura.

 

Nadei para cima e vi Myra lutando para manter a boca fora d’água, batendo os braços em desespero.

 

Myra! Você tem que ficar calma e tomar o máximo de fôlego que puder! – Eu gritei, sem saber se ela me ouviria. Mesmo assim, mergulhei e golpeei a corrente dela do mesmo jeito que fiz com a minha. Mas ela me agarrou pelos cabelos e me puxou e empurrou para cima e para baixo.

 

 

Por que ela fez isso, vovô? Você não tava tentando salvar ela? – Perguntou minha neta.

 

As pessoas ficam birutas quando estão com medo, minha querida. Especialmente quem está se afogando. Elas não sabem o que estão fazendo! Só querem sobreviver. – Respondi.

 

E você deixou cair sua espada, não foi? – Disse o garotinho.

 

Sim, de fato.

 

Eu consegui me afastar dela e lutei para respirar, mas sabia que não tínhamos muito tempo. Daquele jeito ela iria se desesperar e sufocar rapidamente, mas eu não podia chegar perto sem que ela matasse a nós dois. Decidi arriscar e dei outra respirada bem funda. Nadei até a ruiva e agarrei seus pulsos. Ela se debateu, mas consegui me aproximar. Pus meus lábios sobre os dela e soprei o máximo de ar que pude. Seus olhos se arregalaram de surpresa e, finalmente, ela se acalmou.

 

Apontei para cima. Ela concordou com a cabeça e eu emergi para pegar mais ar. Quando fiz isso pela terceira vez, mergulhei mais fundo, apanhei minha espada e quebrei a corrente dela.  Finalmente consegui levar Myra para a superfície e tomamos uns bons goles de ar. Contudo, a água já estava a menos de um metro do teto.

 

Você tem que continuar batendo os pés! – Eu disse.

 

O que vamos fazer? – Ela berrou.

 

Eu acho que vi uma porta em algum lugar! – Eu disse e mergulhei mais uma vez. Ela gritou alguma coisa, mas não pude ouvir. Quando cheguei à porta quase roguei uma praga. Também era feita de ferro. Comecei a golpeá-la com minha espada, com toda força. Cada pancada reverberava como um gongo, mas a porta mal se movia.

 

Lá em cima, Myra estava passando por maus bocados. A água estava quase no teto e ela começava a entrar em pânico novamente. Eu rezei por força e minhas mãos brilharam. A luz dourada se espalhou, envolvendo meus braços e também descendo até minha lâmina. Fiz algum progresso com a porta, mas estava ficando sem ar. Comecei a entrar em pânico.

 

Então senti um novo jorro de força. Ainda mais luz brilhou ao meu redor e envolveu minha espada. Myra, com as bochechas infladas, tocava meu ombro. Eu golpeei a porta mais uma vez. Ela se espatifou e foi arremessada para a sala seguinte. A correnteza que se formou nos mandou para fora, às cambalhotas. Nós aterrissamos molhados até os ossos e congelando, mas vivos. Myra tossiu pesadamente e depois gargalhou de alívio.

 

Eu disse que não era um brinquedo! – Falei a ela, apontando para minha espada.

 

Ela me agarrou pela nuca e me puxou até um beijo. Todo frio que eu sentia sumiu do meu corpo. Segurei seu rosto e a beijei de volta.

 

Como isso é possível? Que tipo de lâmina é essa? – Disse a ruiva, sem fôlego.

 

Eu… te falei… – Respondi, ainda meio tonto. Sentia como se estivesse fora de minha pele. – É madeira-de-druida…  feita com galho de tronco-de-estrela.

 

Ela deu de ombros, sem entender.

 

Faz a arma bater mais forte. – Expliquei.

 

Nos beijamos de novo. Depois amparamos nossas frontes uma na outra.

 

Se você fizer alguma coisa desse tipo outra vez, eu te mato. – Ela sussurrou.

 

Então ouvimos um latido. Quando olhei para cima vi Brownie, Gellrond e Duunar nos encarando. Rindo. Até o cachorro!

 

Acredito que vocês estejam bem. – Disse Gellrond, pondo uma mão sobre a boca para esconder uma expressão malandra. Seu cabelo estava completamente queimado do lado esquerdo da cabeça. Brownie e Dunnar emanavam fumaça, mas pareciam ilesos.

 

Myra já estava de pé, se enrolando em um lençol grosso que Gellrond lhe ofereceu. Eu me permiti deitar no chão e respirar bem fundo, mas Brownie tentou lamber meu rosto.

 

Ok! Ok! Já levantei! Já levantei! – Eu disse, meio afastando-o meio brincando com ele. Duunar também me ofereceu um lençol, ainda rindo.

 

Que foi? – Ele disse. – Eu não vi nada!

 

 

As crianças caíram para trás em suas camas, gargalhando. O ancião bateu em seu joelho, saboreando aquela memória. Então seu rosto endureceu. Sua boca subitamente seca.

 

As coisas se tornaram muito mais sombrias depois disso. – Continuou.

 

 

Nós sobrevivemos ao fogo e a água, mas a sala do altar ainda estava muitos andares abaixo, dentro do coração da montanha. Tivemos que lutar ainda mais e Gellrond sempre nos impulsionava a avançar. Dunnar foi o primeiro a tombar naquele dia. As criaturas de sombras provocaram um deslizamento sobre nós e o mestre anão impediu que fôssemos esmagados ao segurar algumas rochas enormes sobre seus ombros. Assim que saímos daquela sala, o teto colapsou.

 

Brownie, nosso querido Brownie, foi o próximo. Enxames de sombras voadoras nos atacavam. Nenhum de nós estava tendo sucesso em ferí-las, a não ser o cavaleiro-cão. Ele latiu com urgência para Gellrond e o rei empurrou Myra e eu para fora daquela câmara. Gritei e o chamei de maluco, mas ele destruiu os umbrais da porta e selou as sombras, junto com Brownie, lá dentro. Ele tinha lágrimas nos olhos. Quase quebrei minha mão em sua aura de proteção dourada quando o soquei.

 

Era o único jeito. – Ele disse, pesado. – Devemos prosseguir.

 

 

 Brownie… – Disse o garotinho, fungando e segurando as lágrimas.

 

Tá tudo bem chorar, meu querido. – Disse o ancião, enxugando os rostos das crianças e o seu próprio com dedos envelhecidos e calejados. Sua voz estava embargada. – Não foi o fim, sabe?

 

Quando olhei para trás pude ver, pelas fendas entre os escombros, vários clarões de luz divina. Então ouvi o mais poderoso uivo que já existiu. As paredes tremeram e escutei sons de luta que nenhum cão comum conseguiria fazer. Parecia que um urso furioso e reluzente dizimava aquelas sombras.

 

Seguimos em frente apenas para perder Myra em uma sala de espelhos. As direções, cima e baixo e avesso, tudo estava misturado… E lâminas eram disparadas das paredes! Eu estava sangrando e minha cabeça ainda girava, tentando entender o que meus olhos realmente enxergavam. Foi quando a paladina arremessou sua espada vermelha através de uma parede de vidro. Gellrond agarrou meu braço e correu para fora pela abertura. Segundos após passarmos, uma nova parede que parecia diamante cresceu – e nem nossas poderosas espadas combinadas conseguiram quebrá-la.

 

Avançamos até chegarmos a uma porta dupla. Eu podia sentir que o fim daquela aventura maldita estava bem ali, na próxima câmara. Ainda assim, fraquejei e caí de joelhos. Chorei alto, com meu rosto escondido em minhas mãos sujas.

 

Eu… Eu não aguento mais, senhor. Não consigo mais lutar! Não aguento… Perdê-los!

 

Gellrond, o Forte, o Paladino-Rei, a Lenda, o modelo maior de Cavaleiro Celestial… Se ajoelhou à minha frente.

 

Achegue-se aqui, meu rapaz. – Ele disse, com suavidade, e abraçou minha cabeça, trazendo-a ao seu peito. Eu chorei e soquei o peitoral de sua armadura até cansar.

 

Parece que teu pai nunca ensinou a ti que chorar é negócio de homens fortes, não é?

 

Respirei pesadamente, então me levantei, encabulado, enxugando meu rosto.

 

Está tudo bem, filho… Porém, escute: não posso deixar isso acontecer. Como seu superior aqui estou dando-te ordens para que se recomponha. Tu podes e vais lutar. Nós lutaremos. Não deixarei que nossas perdas sejam em vão. Compreende?

 

Sim, senhor. Desculpe, senhor. – Respondi.

 

Temos uma missão sagrada a cumprir aqui. E que melhor razão para morrer do que trazendo alguma luz sobre a escuridão, hum? – Ele disse, com uma mão em meu ombro esquerdo.

 

Luz e Justiça, senhor. – Repliquei.

 

Luz e Justiça, filho. De fato. – Ele cerrou seus olhos e iniciou uma prece. Eu senti poder divino fluindo dele para mim: curando minhas feridas, fortalecendo meus músculos, clareando minha mente. Uma aura dourada similar à dele me envolveu e desapareceu aos poucos, logo depois. Então ele suplicou por poder para si mesmo e eu somei minhas preces às dele. Uma aura azul, no formato de lâminas afiadas, cobriu nossas espadas, fazendo-as parecerem maiores.

 

Pronto? – Ele perguntou.

 

Eu confirmei com a cabeça. Chutamos as portas.

 

Vista por dentro, a câmara parecia uma enorme catedral, mas profana em cada detalhe. Nós pudemos ver as mesmas imagens demoníacas que encontramos no topo da montanha. Apenas parado ali eu já conseguia sentir nas pontas dos dedos algo que fazia minhas tripas se contorcerem. No centro da sala havia uma estalagmite despontando de um espaço circular no chão. No topo dela havia uma magnífica lança dourada, sua ponta tão longa quanto uma espada curta, cravada na rocha nua. A Lança dos Céus. Não havia dúvida: estávamos em frente da arma mais poderosa de Manre, o Imortal que nos garantia nossos poderes.

 

E atrás da estalagmite, preso firmemente por uma rede muito fina, feita com relâmpagos, eu vi o mais horrendo dragão que qualquer pesadelo poderia conceber. Prateado. Contudo, não era majestoso de forma alguma. Ele tinha chifres e espinhos e garras e presas por toda parte. O espaço entre suas escamas parecia estar pingando sangue podre. Cada movimento que ele fazia soava como metal enferrujado sendo rasgado. Ele lutava para se livrar de sua prisão e, para meu horror, vi alguns dos raios faiscarem e desaparecerem. Ele rugiu e sua aura profana pulsou, me atingindo como um bafo de vento pútrido. Ele olhou diretamente para nós. Havia uma cicatriz enorme, de um corte limpo, em seu olho esquerdo.

 

Ele. Argerom.

 

O nêmesis de longa data de Gellrond.

 

Em choque, olhei para o Paladino-Rei.

 

Por favor, falei quase chorando – por favor, senhor, não me diga que você nos enganou para morrermos aqui só pra você destruir seu inimigo pessoal!

 

As mãos dele estavam crispadas e tremendo. Seus olhos estavam sombrios e terríveis. Ele ergueu sua espada, apontou para baixo e a enfiou no chão com tanta força que a lâmina entrou até o meio.

 

Não. Não fiz isso. – Ele respondeu, olhando para frente. – Não deixa que teus olhos sejam enganados por aquele demônio lá. Usa teu coração. Ele apenas se metamorfoseou no que quer que tornasse mais fácil a tarefa de nos destruir.

 

Senti a fúria crescer em meu peito. Era essa a explicação dele? Então Gellrond me olhou diretamente nos olhos:

 

Eu viajei ao Inferno e matei Argerom lá, em definitivo, muitos anos atrás. É outro tipo de mal o que enfrentamos aqui.

 

Sacudi a cabeça e expirei. Busquei pela resposta em meu coração e então vi a imagem da criatura piscar e se esvanecer, para logo depois entrar em foco outra vez. Aquela coisa estava mexendo com minha mente.

 

Veja! – Gellrond falou. – Está mudando para outra forma… O que é aquela coisa? Tem algo a ver com teu passado?

 

O monstro agora era a mais medonha serpente marinha que eu poderia imaginar. Escamas verdes e azuis como o oceano, olhos mortos de tubarão, assim como uma horrenda boca de enguia. Ela chiou e lutou contra a rede elétrica, fazendo mais alguns raios se rasgarem e sumirem.

 

Sim… Eu costumava ter pesadelos com esse tipo de monstro por causa das histórias que os  pescadores contavam

 

-Bem, disse Gellrond – Vamos acabar com…

 

A parede oeste explodiu!

 

Pilares de pedra foram arremessados para todo lado entre nós e a criatura. Nuvens de poeira se espalharam das rochas quando um gigante saiu do meio delas. Tinha a altura de três homens e era tão largo quanto. Seu corpo parrudo tinha formas como que feitas de rocha, mas era, na verdade, feito de trevas. Aquele novo monstro rosnou e golpeou outro pilar com seu punho titânico. As pedras se esfacelaram como palitos atingidos por um touro.

 

Mathayus! Eu cuidarei do golem de sombra! Tu, vais adiante! Tire a lança de Manre daquela pedra e mate o demônio! – Gellrond gritou e ergueu seu braço direito. Seu punho brilhou como uma tempestade e disparou um raio direto no peito do último guardião. O som do trovão ribombou na câmara quando a rajada elétrica crepitou e desequilibrou a criatura por um momento. Mas foi o bastante para o Paladino-Rei avançar e me dar cobertura.

 

Por uma fração de segundo eu vi a aura de Gellrond se expandir em suas costas, como uma multidão de fitas feitas de pura luz, formando asas de anjo. Então ele foi propelido para cima e para frente. Sua espada abalroou a barriga do golem com o som de montanhas colidindo. Contudo, o gigante apenas o estapeou e o mandou girando em direção à parede oeste.

 

Eu despertei de minha perplexidade e corri. Gellrond urrou e voou novamente na direção do golem. O monstro sob a rede chiou e abocanhou o ar e, de repente, uma boa parte dos raios que o prendiam desapareceu. A serpente marinha se esticou e mordeu novamente, mas não conseguiu tocar a lança.

 

Rápido! – Gellrond gritou, e eu ouvi quatro sonoros golpes do golem, que o socou repetidas vezes. O rei aparou todos os ataques com sua espada. Ele estava tremendo, rilhando os dentes, e o chão se quebrava ao redor de seus pés.

 

Eu escalei a rocha o mais rápido que pude. Quando cheguei à lança, a primeira coisa que vi foram os olhos do monstro se elevando sobre mim. Agora eles eram como de cobra, enormes e com um brilho venenoso, verde e vermelho, pulsando ao redor das pupilas verticais.

 

Meus joelhos fraquejaram e a serpente avançou sobre mim. Quando suas mandíbulas bateram, um jato de ar atingiu minha cara. Contudo, ele não conseguiu me alcançar. Ainda.

 

Agarrei a haste da lança. Eu esperava que ela fosse me preencher de poder divino e com isso eu cortaria fora a cabeça da besta e iria pra casa. Mas, ao invés disso, minha mão queimou como o diabo.

 

Puxei meu braço por reflexo. Minha mão latejava. Tentei novamente e a dor foi ainda pior. Eu rezei e uma luz dourada se espalhou pelos meus dedos, curando minha pele. Contudo, senti como se o céu tivesse descido sobre meus ombros. Todo o cansaço dos últimos quatro dias de lutas e perigos me atingiu.

 

O que está acontecendo? – Gellrond gritou. Ele tinha acabado de esquivar de outro soco e agora tentava golpear uma perna do golem.

 

Tem alguma coisa errada! – Berrei de volta. – A lança está me ferindo! Não consigo tocar nela!

 

Não pode ser! Teu destino é empunhá-la! – Ele gritou mais uma vez.

 

O quê?!

 

Ele trocou mais alguns golpes com o gigante. Pude ver que ele estava ferido e ofegando. O demônio tentou me morder novamente. Dessa vez chegou mais perto.

 

A profecia! Tu és o que deve fender da besta maldita a semente!

 

Quê!? Tá maluco! Do que você tá falando? Eu não sou o Puro! – Gritei e pulei da estalagmite. Corri até o lado oposto ao dele e ataquei o tornozelo esquerdo do golem com toda força que consegui reunir. Coloquei todo meu cansaço, frustração e raiva naquele golpe. O gigante tropeçou.

 

Volte para lá! Saque aquela lança! – Gellrond berrou.

 

Você tá fora de si! Vamos matar essa coisa e você mesmo faz isso! Eu não sou poderoso o bastante!

 

Saltei para trás quando o titã se virou para me encarar. Ele ergueu ambos os punhos e eu não tive outra opção senão correr. Ouvi o relâmpago de Gellrond atingir o gigante de novo e, dessa vez, ele gritou. Corri de volta e ataquei à toda seu tornozelo, mais uma vez. Faíscas azuis voaram. O golem rugiu. Ele girou já me estapeando. Com força. O chão sumiu de sob meus pés.

 

Quando acordei, Gellrond estava gritando comigo. Sua mão estava sobre minha testa, brilhando. Senti a vida voltando ao meu corpo.

 

Ó, Senhor! Eu achei que havia perdido a ti, garoto estúpido! – Disse rindo.

 

Ele tinha sangue por todo rosto e tentou se limpar usando o braço, mas armaduras prateadas não são muito boas pra esse tipo de coisa. Ele me ajudou a levantar. Eu ainda estava tonto, mas podia ouvir os rugidos furiosos do dragão-demônio de prata.

 

Rápido! O monstro está quase livre! – Gellrond disse. Ele me amparou enquanto eu mancava o mais rápido que podia.

 

Do que você está falando, homem? – Eu perguntei, mas ele não precisou explicar. Apenas metade da rede de eletricidade mágica ainda mantinha a fera em seu lugar.

 

Ouça! Nós todos tivemos nossas vidas manchadas pelo mal. Orgulho. Ódio. Cobiça. Luxúria. Manre nos tirou a todos da escuridão e nos deu propósito. Mas tu és diferente! Sempre fostes um seguidor do caminho da luz de coração. O Forte há de cair; O Sábio há de calar; O Esperto há de ruir; E o Amável desabar. Eu sou conhecido como o Forte. Duunar é o homem mais sábio que já conheci. E tu mesmo vistes como Myra levou a melhor sobre todas aquelas armadilhas? E quem não amaria Brownie? Se tu falhares, estaremos todos condenados!

 

S-sim, mas…! – Eu estava em choque.

 

Tu és o Puro. Posso sentir em meus ossos! Não significa que és perfeito, filho! Significa que fazes o teu melhor para ajudar e curar, com teu coração cheio de boa vontade!

 

Mas vocês todos não fazem isso também? – Repliquei. Estávamos de frente para a estalagmite. Ele me segurou com firmeza e nós fez voar. Pousamos em frente da lança.

 

Agarrei-a e puxei o mais rápido que pude!

 

A arma se moveu uns centímetros. O dragão se debateu em nossa direção, mordendo e arranhando como um cão raivoso. Chamas verdes brotaram da rocha e engolfaram meu braço. Eu gritei e chorei. Gellrond me implorou para aguentar firme.

 

Foi o que fiz.

 

Cada nervo de meu corpo pulsava de agonia. Os versos da profecia giravam em minha mente à medida que sentia meu braço derreter. Clarões de escuridão estilhaçaram minha sanidade e sussurros malignos me cercaram. Tirei a mão.

 

A dor se foi por meio de uma aura brilhante. Em alívio absoluto, abri meus olhos e vi Gellrond de joelhos, suas mãos ainda brilhando, vomitando sangue. Tentei ampará-lo, mas estava cansado demais. Eu podia ver que menos de um quarto da rede elétrica mantinha a fera afastada de nós.

 

Não tá certo! Não é desse jeito! – Eu disse, quase sem voz.

 

Não… pode… ser! – Gellrond respondeu. Nunca tinha visto um rosto tão atribulado em toda minha vida.

 

Deve ter algo mais! Alguma coisa não tá encaixando! Por que Manre deixaria sua lança aqui, sua arma mais poderosa, segurando essa criatura? Ele poderia ferir o bicho ele mesmo!

 

O rei olhou para mim, confuso.

 

Veja… A profecia diz que o Puro deve “fender da besta maldita a semente”. A semente. E se o verso não é sobre a besta? – Eu falava muito rápido.

 

Não há mais nada! Você quer dizer que a lança não está aqui para mantê-la prisioneira? Que atende a outro propósito? – Ele perguntou em desespero.

 

Você não sentiu o mal nela quando ela me machucou? É uma arma! Um instrumento de morte! E a criatura toma a forma de nossos maiores medos pra poder nos destruir! Talvez estejam mais conectadas do que a gente pensava!

 

O barulho feito pelo demônio agora era insuportável.  A catedral inteira zumbia e vibrava quando o monstro se movia. Ele começou a bater no chão com suas patas, quebrando-o. O teto da caverna agora balançava e soltava nuvens de poeira.

 

Empunhei minha espada.

 

O que você está fazendo? – Gellrond gritou.

 

Isso não é a lança de Manre, senhor! E não posso deixar que o devorador de mundos saia daqui! – Eu disse.

 

Ele ergueu a mão como que para me impedir. Contudo, ele encarou o monstro e depois me olhou fundo nos olhos. Inspirou. Ambos vimos a imagem da arma piscar e se esvanecer, depois voltar ao foco. Ele acenou com a cabeça.

 

Eu golpeei a lança. Com toda a força.

 

 

E então…? – A menininha perguntou. Seus olhos estavam arregalados. Ela estava quase comendo seu coelhinho.

E então o quê? – O avô falou, fingindo inocência.

 

O que aconteceu com você?! O que aconteceu com o monstro!? O que aconteceu com a lança!? – O menino gritou. O ancião gesticulou com ansiedade.

 

Shhhh!!! Tão malucos?! Vocês já deveriam tá dormindo! Assim vão acordar sua av…

 

A porta se abriu e uma anciã entrou. Ela era esguia e ágil. Sua pele estava envelhecida, mas lindamente bronzeada, e seu cabelo grisalho ainda parecia vermelho à luz das velas.

 

Não acredito que vocês moleques ainda estão acordados! Mas é claro que estão! – Ela disse. Tinha uma mão sobre a cintura, mas sua voz era suave e brincalhona. A senhora apontou para o ancião. – Você está contando a Lenda das Cinco Espadas pra eles, não está?

 

Bem, querida… Você sabe… Eles adoram essa história.

 

– Você adora essa história, Mathauys. – Ela disse, com um risinho de canto de boca. – Falta muito pra acabar?

 

Não, vovó! Ele já quebrou a Lança da Morte! – Disse o menino.

 

Lança da Morte? – A senhora olhou para o ancião, fazendo uma careta.

 

Ele deu de ombros, sorrindo.

 

Vem pra cá e escuta com a gente, vovó! – Suplicou a menina. A mulher andou até eles, acariciou o rosto da garotinha e o cabelo do menino.

 

Ah, meus queridos, não! Eu já conheço essa história muito bem. Estou muito cansada… E… vocês… também! – Fingiu um bocejo, mas foi o suficiente para que seus netos bocejassem junto. Ela gentilmente os empurrou até seus travesseiros e o ancião a ajudou a cobri-los.

 

Vou terminar a história e já encontro você, meu bem. – Disse Matahyus. Os dois anciãos tocaram suas mãos antes que a senhora saísse pela porta. Ela se virou com o mais lindo e feroz sorriso no rosto.

 

Tudo bem, amor. Mas não esqueça de contar pra eles como nós quatro acordamos completamente curados depois que a lança foi quebrada e o monstro se desintegrou. E que fui eu quem tirou você debaixo de todos aqueles escombros da catedral e depois te trouxe de volta à vida. Quantas vezes foram mesmo que salvei você? Nove? Dez?

 

Seis! Apenas seis, meu amor. E eu tinha tudo sob controle. – O ancião respondeu, sorrindo de todo coração.

 

 

* * * * *

Escrevi esse conto diretamente em inglês para me inscrever no Workshop para Escritores da DC Comics. Infelizmente não passei, mas não me arrependo do trabalho que tive de jeito nenhum! =D

A base desse texto foi um velho personagem de RPG meu – Gellrond Ghtwalff Triitoshi XVIII – cuja história resumida você pode conhecer aqui mesmo. Nem me fale sobre nomes extravagantes hauhauha! Joguei com esse paladino por mais de quatro anos e ele aparece em mais algumas coisas que escrevi de lá pra cá. Foi uma experiência única vê-lo se desenvolver e, especialmente, jogar com ele após ter conseguido derrotar seu nêmesis, Argerom.

Durante esse tempo joguei uma aventura na qual o outro personagem era também um guerreiro sagrado que servia à mesma divindade da justiça. Ainda assim, ambos eram únicos e a dinâmica entre os dois era muito interessante. Então pensei: como seria um time de aventureiros composto apenas por paladinos?

Brownie, Duunar e Myra vieram de outras ideias separadas, mas que se encaixaram lindamente. Mathayus é o típico novato, mas que vem de uma necessidade que vejo de termos mais heróis que decidiram fazer o bem – e não apenas foram jogados às aventuras por alguma tragédia ou infortúnio. Também joguei RPG com ele como personagem. =)

A Lenda das Cinco Espadas faz parte da mitologia de um mundo de fantasia que figura num romance que estou escrevendo. Hehehe…

Espero que você tenha gostado! Até a próxima!

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