A Lenda das Cinco Espadas – Parte 1 de 2

Matheus Olivaer 04/25/2017

Cinco espadas unidas

Pela luz guiadas

Para curar as feridas

Das terras devastadas

 

 

Mas o Forte há de cair

O Sábio há de calar

O Esperto há de ruir

E o Amável desabar

 

 

Se o Puro não fender

Da besta maldita a semente

As trevas hão de descer

E o sol apagará finalmente

 

 

“Era nosso terceiro dia combatendo pela estrada da montanha, quando finalmente atingimos os degraus do templo profano e fomos atacados pelos demônios de sombra! E…”

 

 

Não, vovô! Você não devia começar na taverna? Quando vocês paladinos todos se encontraram pela primeira vez? – Perguntou a menininha, apertando as orelhas de seu coelho azul de pelúcia.

 

É, vovô! Você não vai contar pra gente a Lenda das Cinco Espadas? Com Gellrond, o Forte, convocando você e… – Disse o irmão gêmeo da menina, erguendo sua espada de madeira.

 

 

O ancião riu e deu um tapinha no próprio joelho.

 

 

Ah, não, meus queridos! Os bardos ensinam que devemos começar uma história bem no meio da ação! Você deixa as pessoas na ponta das cadeiras e elas devorarão suas palavras! – Ele falou, fechando o punho para enfatizar. As crianças prenderam o fôlego, os olhos arregalados. O ancião coçou sua barbicha branca, sorriu e disse:

 

 

Além do mais, vocês já ouviram muitas vezes como o jovem Cavaleiro Celestial Mathayus foi convocado pelo maior de todos os guerreiros sagrados, o Paladino-Rei Gellrond, para uma missão muito especial. A avó de vocês vai arrancar meu couro se a história demorar demais!

 

 

Mas fale sobre Duunar! – Implorou o menino.

 

 

O homem mais parrudo que já conheci. – Completou o avô. – Ele era careca e tinha uma barba grisalha e curta, algo muito incomum para um anão das montanhas, e estava o tempo todo vendado, descalço e vestindo suas roupas simples de monge. Ele era mestre na luta sem armas.

 

 

E fale de Myra! – Pediu a menina.

 

 

Ah, a linda Myra Espada Vermelha! A jovem paladina ruiva que costumava lutar com uma rapieira. Sabem, a maioria de nós Cavaleiros Celestiais estávamos sempre enfiados em nossas armaduras de placas, mas Myra era a mais veloz espadachim que já conheci. E nunca lutava vestindo mais do que uma armadura de couro.

 

 

E Brownie, o Bravo! – Gritou o menino, pulando sobre a cama.

 

 

Brownie! – Acompanhou a menina, abraçando seu coelhinho. – O cachorro mais fofinho de todo, todo o mundo!

 

 

O ancião gargalhou novamente.

 

 

Sim, meus queridos. Brownie, o paladino amaldiçoado, aprisionado no corpo de um vira-lata comum. O mais fofinho, corajoso e leal amigo que qualquer cavaleiro poderia ter ao seu lado. Mas agora, silêncio!  Nós estávamos aos pés do templo! Cansados e congelando, prestes a sermos atacados novamente! E, quem sabe, pela última vez!

 

 

As duas crianças se inclinaram para a frente, cobriram-se com seus lençóis e cravaram as unhas no espelho de suas camas.

 

 

 

“Dessa vez as sombras que guardavam o templo tomaram a forma de leões quando nos cercaram!  Nós cinco lutamos com as costas unidas, mas logo eu tinha sido isolado dos outros. Eu cravei a cabeça de uma criatura no chão a tempo apenas de ver outra saltando sobre mim. Foi como se o mundo ficasse mais devagar… Eu vi claramente as garras e presas crescendo à medida em que se aproximavam para me estraçalhar. Mas, de repente, eu fui puxado para o lado e caí sobre meu traseiro!

 

 

Acorda, garoto! Não posso ficar te salvando pra sempre! – Disse Myra, me dando um sorriso feroz. Ela puxou de volta sua rapieira do crânio da criatura e a carcaça se dissolveu em uma poeira escura. – Quantas vezes agora? Sete? Oito? Ela atalhou.

 

 

Quatro! Somente quatro! E eu tinha tudo sobre controle! E por que você fica me chamando de ‘garoto’? Você é o quê? Três anos mais velha que eu? – Protestei, irado, enquanto me levantava e assumia uma postura defensiva novamente, colando minhas costas às dela.

 

 

Vou continuar até você jogar fora essa espada de brinquedo e conseguir uma que preste! – Ela disse, rindo. Aparou uma patada cheia de garras e, imediatamente, contra-atacou duas vezes. Outra nuvem negra.

 

 

Eu estava ocupado me defendendo dos meus próprios adversários. Consegui acertar ambos com um único golpe de minha espada de madeira. As feras se chocaram e se foram girando até os chutes devastadores de Duunar.

 

 

Viu? – Disse eu. – É mágica! Feita com madeira-de-druida e…

 

 

Myra já estava a vários passos de distância, dando cambalhotas e cortes por onde passava. A luta estava praticamente acabada. Eu suspirei e assisti Brownie morder o pescoço da última sombra enquanto Gellrond a dividia ao meio como um pedaço de queijo podre.

 

 

Como aconteceu desde o começo da missão, eu era o combatente mais ferido de nosso pequeno esquadrão. Eu poderia facilmente me remendar daquela vez, mas Gellrond insistiu em que todos nos alternássemos em nossas orações de cura, para não gastarmos muita energia. Até Brownie participou – embora para ele essa ação envolvesse um monte de lambidas. Não pude deixar de notar que o Paladino-Rei estava me poupando mais do que aos outros e fazendo a maior parte do trabalho ele mesmo.

 

 

Não pense bobagens. – Disse o anão ternamente, quando recomeçamos a caminhar. – Ele gosta de pensar à frente. Hai. Ele tem fé em todos nós. Mas também sabe que temos mais chance se não nos forçarmos ao limite agora.

 

 

É… Bem… Eu sei. – Respondi, tão surpreso quanto embaraçado. – Eu não ia dizer nada.

 

 

Eu sei que não ia. – Duunar respondeu, com um leve sorriso. Ele me deu um tapinha nas costas e seguiu em frente. Brownie veio para o meu lado e eu afaguei sua cabeça enquanto andávamos. Ele balançou a cauda e me deu um sorriso canino. Ele era tão… cachorro… que era difícil lembrar que ele já fora um homem antes.

 

 

Finalmente alcançamos o topo da montanha. Mal podíamos ver os arredores graças à neblina que inundava o lugar. Caminhamos juntos até o que deveria ser a fachada do templo, que mais parecia um mausoléu. E não havia porta.

 

 

Andamos ao redor da construção e voltamos ao ponto inicial sem ver qualquer brecha na estrutura das paredes. Olhamos uns para os outros, confusos, mas Brownie farejou o chão e nos guiou até a parede ocidental. Então olhou para Gellrond e latiu.

 

 

Estás certo disso? – Disse o rei, coçando sua cabeça loira.

 

 

Deixa eu adivinhar. Falei para o grupo – Tem uma porta escondida aqui e esse prédio é maior por dentro do que parece por fora.

 

 

Gellrond me deu um sorriso feroz, depois fechou os olhos. Eu não reconheci a oração que ele fez, mas quando voltou a abri-los, vi que brilhavam com uma luz púrpura. O cavaleiro perscrutou o prédio de cima a baixo.

 

 

Estás mais do que certo, meu rapaz! – Ele disse, agora com seus olhos de volta ao azul-escuro de sempre. – E para abrirmos as portas é mister que ativemos o enigma. Aquele ali! – Gellrond apontou para cima com sua espada de duas mãos, que ele segurava com apenas uma sem dificuldade. – Todos vós conseguis vê-lo?

 

 

Eu apertei os olhos e encontrei algumas marcas de cerâmica próximas ao teto do mausoléu.

 

 

Provavelmente não um problema de alcance para os cultistas e seus corvos de estimação, mas como nós o faremos? – Perguntou o Paladino-Rei, mais a si mesmo que a nós.

 

 

Duunar… – disse Myra, prendendo os cabelos cor de fogo com uma tira de couro. – Uma mãozinha?

 

 

O anão abriu seu enorme punho e Myra pulou graciosamente sobre ele. Então, Duunar a impulsionou na direção da construção. A amazona girou o corpo no ar e aterrissou como uma aranha na parede de pedra. Eu não conseguia ver no que ela estava se segurando, mas Myra parecia se mover sem esforço, fosse usando as pedras como apoio ou se balançando pelas vigas do telhado. Minutos depois ela disse um “A-há!” e saltou de volta para o chão.

 

 

Feito. – Disse sorrindo e batendo a poeira das mãos. O desenho de uma porta dupla decorada começou a tomar forma na parede, bem em frente aos nossos olhos. Contudo, não era uma visão agradável: mostrava imagens de anjos e homens gritando, vítimas de múltiplas torturas. Gellrond tomou a frente e empurrou as portas.

 

 

Todos fomos atingidos por lampejos de trevas e sussurros malignos. Chamas verdes se espalharam por toda a armadura que cobria a mão do Paladino-Rei, mas ele rezou novamente e um pulso de luz dourada engoliu o fogo. O cavaleiro meio-elfo sacudiu sua mão esfumaçada e disse, dessa vez sem nenhum sorriso:

 

 

Está trancada.

 

 

Não somos bem-vindos aqui. – Eu atestei o óbvio.

 

 

Parece precisar de uma chave mágica. – Myra comentou. Só depois que ela falou percebi uma fechadura bem esquisita incrustada em uma das portas.

 

 

– Hai. Mas nós já temos a chave. Posso? – Disse o anão. Gellrond deu um passo para o lado e curvou a cabeça num gesto bastante nobre. Duunar cerrou os punhos em uma posição de luta lateral. O paladino loiro preparou sua espada para o que pudesse sair de lá de dentro. Myra e eu nos entreolhamos com seriedade e fizemos o mesmo.

 

 

O anão expirou bem devagar… Depois levou uma mão aberta ao queixo, como se fosse fazer uma prece, enquanto o outro punho ainda estava preparado para um soco. Seus lábios se moveram em mais uma reza que eu não reconheci. E então…

 

 

 

E então o quê, vovô? – Disse a menininha, quase mordendo as orelhas de seu coelhinho de pelúcia.

 

 

Então aconteceu uma das coisas mais impressionantes que já vi! Sabem, a maior parte dos cavaleiros carrega seu símbolo sagrado num colar ou pintado no escudo. Mas Duunar tinha a balança e o sol nascente tatuados no peito. A tatuagem começou a brilhar! A aura se expandiu como uma armadura ao redor dele. Quando chegou a suas mãos, a luz tomou a forma de manoplas gigantescas. Duunar socou as portas usando aquele punho espectral e elas se desfizeram como um castelo de cartas. Bem, se castelos de cartas explodissem…

 

 

 

“A montanha inteira pareceu balançar e os ventos uivaram furiosamente… Mas nada mais.

 

 

Decidimos montar acampamento naquela entrada. Protegidos do clima, acendemos uma boa fogueira. Engraçado. Estávamos mais perto do inimigo do que nunca, mas é uma das noites mais queridas que guardo na memória.

 

 

Eu estava lá, me perguntando como um humilde noviço como eu podia estar entre companheiros tão extraordinários. Nós éramos chamados de Cavaleiros Celestiais, as espadas do paraíso. Eu não poderia ser comparado a eles, mas lá estava. Nós conversamos ao redor do fogo e percebi como todos eles tinham sido tocados pela tragédia em seu passado. Duunar tinha sido um senhor da guerra dos bárbaros, mas foi traído e cegado por seus próprios generais.

 

 

Eu já era cego pelo orgulho minha vida inteira, meu garoto. Hai. Meus soldados só deixaram meus olhos iguais à minha alma. – Ele disse, se apoiando em seu bastão.

 

 

Eu… Não sei o que dizer, Duunar. Sinto muito.

 

 

– Hai. Obrigado, rapaz. Mas não sinta. Foi há muito tempo. Isso não mais me fere ou assombra.

 

 

Não? – Eu disse, surpreso. – Como… Como você se sente agora?

 

 

O anão respirou profundamente e sorriu.

 

 

Em paz.

 

 

Permanecemos em silêncio por um tempo. Eu podia ouvir Gellrond falando ternamente com seu pequeno espelho redondo. Sua esposa, a rainha Líllien, tinha uma versão maior do objeto no reino deles, Triitoshi. Eu conseguia ouvir as risadas élficas e musicais dela, e aquele homem lendário a acompanhava, rindo também. Brownie deu um latido suave e balançou a cauda enquanto dormia. Myra usava a colher para brincar com o cozido em seu prato, seus olhos perdidos em algum outro lugar. O cheiro caseiro da carne contrastava com a penumbra que rodeava nosso acampamento. Então, a espadachim disse:

 

 

Eu nem sempre fui uma paladina, sabe? Aquela velha história: vivendo sozinha, crescendo sozinha. Tive que me virar pra sobreviver.

 

 

Acho que meu queixo caiu de surpresa. Ela era tão linda que eu podia jurar que vinha de família nobre.

 

 

É… Eu era menina de rua. – Ela disse, olhando nos meus olhos. – Aí um dia eu tentei morder um pedaço maior que a boca. O cara que eu tentei roubar era muito rico e ficou muito nervoso. Eu estaria morta agora se não fosse por aquele sacerdote que estava no meu julgamento. Ele me acolheu e me ajudou a ver a luz. – Ela sorriu com tristeza.

 

 

Você se arrepende? – Perguntei.

 

 

Ah, não! Pela primeira vez eu tive um teto seguro sobre a cabeça. Uma… Família. – Ela disse, fitando-nos um por um. – É só que… Às vezes eu fico pensando… Eu queria que ninguém tivesse que passar pelo que eu passei, sabe?

 

 

Eu assenti. Brownie agora corria dentro de seus sonhos.

 

 

E ele? – Perguntei. – É verdade que ele é amaldiçoado? Um paladino que caiu da graça?

 

 

– Hai. História triste. – O anão respondeu.

 

 

Mas… O que aconteceu?

 

 

Myra revirou os olhos.

 

 

O que você acha, garoto?

 

 

Uma mulher. – Respondeu Duunar.

 

 

Gellrond retornou e se sentou conosco. Eu raras vezes vi um homem com um sorriso tão grande na cara.

 

 

E você o que me diz, meu rapaz? Como está a rainha Líllien e os aquele fedelhos reais de vocês dois? – Duunar falou em tom de brincadeira.

 

 

Graça seja dada ao nosso senhor Manre, estão bem. Todos os quatro sentem falta de suas lições, sensei. – Gellrond respondeu.

 

 

– Hai. Bons pupilos. Especialmente a rainha. Talento nato para o Estilo da Fênix. Bem melhor que você, seu cabeça-dura. – O anão falou, com um sorriso feroz.

 

 

Gellrond gargalhou e depois comeu seu cozido. Eu não precisava ouvir sua história. Era conhecida. Um príncipe mestiço, mas de uma longa dinastia de elfos-do-sol, cujo reino foi devastado por um demônio na forma de um dragão de prata: Argerom. O monstro arrancou o filho não nascido do ventre de Líllien na frente de Gellrond, mas ele ainda conseguiu arremessar a espada da família no olho esquerdo da fera. O príncipe sem reino acordou dias depois, quase morto, em um monastério milhas distante de seu reino. Acreditando ser o único sobrevivente, ele se tornou um Cavaleiro Celestial e caçou obsessivamente Argerom para recuperar seu bebê. Graça seja dada a nosso senhor Manre e sua misericordiosa esposa Allana, a princesa Líllien sobreviveu. Alguns anos mais tarde, eles juntos reergueram seu reino até sua antiga glória. Gellrond se tornou um homem muito amigável desde então.

 

 

E quanto a ti, filho? – Ele estava me perguntando.

 

 

Eu pisquei algumas vezes até entender.

 

 

Ah! Eu? O quê? N-nada de especial, alteza, majestade… Senhor!

 

 

Todos eles gargalharam.

 

 

Calma, filho. – Gellrond disse, colocando uma mão coberta de armadura sobre meu ombro. – Não são necessárias tantas formalidades aqui.

 

 

Mas você chamou Duunar de “sensei”. – Repliquei sem pensar. Eu e minha boca grande.

 

 

Sim, estás certo. Não consigo evitar. – Disse o cavaleiro, sorrindo de canto de boca. – Você pensa rápido.

 

 

Não muito. – Myra falou, arremessando sua colher na minha cara. Eu a peguei no ar por puro reflexo. Ela sorriu e disse: E então? Sobre você.

 

 

Nada demais. – Eu respondi. – O normal.

 

 

Garoto, com essa vida que a gente leva, você não sabe como eu adoro coisas normais… – Ela disse, pondo de lado a tigela de cozido vazia e cruzando as pernas. Depois se embrulhou na sua capa, deixando apenas o rosto sardento para fora do capuz.

 

 

Eu fiquei surpreso. Nunca pensei que ela fosse ter qualquer interesse no que eu tinha a dizer. Brownie estava acordado agora e se deitou mais perto do fogo.

 

 

A história mais velha do mundo. Garoto conhece garota. Garota fica grávida… – Eu suspirei. – Garoto vai embora e nunca mais volta… Garota se torna mãe e cria seu menino sozinha. – Eu falei olhando para a fogueira e cutucando-a com um graveto. – Mas ela mandou bem. Minha mãe é uma mulher incrível. Comprou a taverna local. Eu nasci e fui criado em uma vila de pescadores lá no sul.

 

 

Por que te tornastes um Cavaleiro Celestial? – Gellrond perguntou, sorrindo. Ele já sabia, claro, mas entendi que ele queria que eu compartilhasse minha resposta com os outros.

 

 

Eu dei ombros:

 

 

Só queria fazer do mundo um lugar melhor, eu acho. Fazer a minha parte, pelo menos.

 

 

Posso jurar que todos os quatro trocaram olhares de contentamento. Embora, vocês sabem… Um deles fosse cego e o outro um cachorro. Então Gellrond disse:

 

 

Ele começou o Caminho da Justiça pouco tempo atrás e eu ouvi que foi o responsável por dar fim à maldição do Bosque de Ygoleth. Estou certo, filho?

 

 

Eles pareceram impressionados. Eu apenas encolhi ombros, embaraçado.

 

 

As asas de Manre estavam sobre mim naquele dia. E eu não estava sozinho, vocês sabem…

 

 

Não faça pouco de si mesmo, filho. – Disse Duunar. – Você foi um instrumento da Luz e, embora não seja bom se tornar arrogante, você deve guardar isso em seu coração com orgulho.

 

 

Equilíbrio difícil, não é? – Comentou Myra.

 

 

Sempre. – Disse Gellrond.

 

 

E você já viu o mar? – Myra perguntou com olhos famintos, inclinando-se para frente.

 

 

Sim, claro. De onde você acha que vem a cor da minha pele? Eu adorava nadar no oceano.

 

 

A ex-ladra me abraçou com seus olhos, pôs sua mão sobre a minha e a apertou.

 

 

E qual é a sensação? É frio? É salgado como dizem? Fala mais!

 

 

E eu falei. Sobre o toque suave das ondas, o cheiro do vento, e o som das marés à noite, quando até a lua já foi dormir. Acho que falei por horas, com ela me perguntando cada detalhe da minha vida na vila quando criança. Eu percebi Duunar e Gellrond se esgueirando para seus sacos de dormir, sorrindo, enquanto eu e Myra continuávamos conversando. Ela disse que sempre tinha sido fascinada com a ideia de se mudar da sujeira da cidade para um lugar mais tranquilo, perto da praia.

 

 

Tomaria sol todos os dias, como você! Mas eu morro de medo de água! Não sei nadar! – Ela comentou entre risinhos.

 

 

Bem, a maior parte dos cavaleiros e pessoas da cidade não sabem. Mas eu posso te ensinar.

 

 

Você me levaria lá? –  Perguntou a ruiva, com um sorriso enorme que me fez sentir derretendo por dentro.

 

 

Algum dia… – Respondi, tonto.

 

 

Combinado. E paladinos não podem mentir. – Ela disse, virando-se para o outro lado e entrando em seu saco de dormir. – O primeiro turno de vigia é seu.

 

 

T-tudo bem. – Eu disse, sem ver motivos para protestar.

 

 

 

Vovô! – Pediu o neto, bocejando: Vai logo pra parte da água!

 

 

É! A parte do beijo! – Disse a garotinha.

 

 

Ok, ok… Vou chegar lá! Vou chegar lá! – O ancião respondeu, fingindo uma expressão aborrecida por ter sido apressado. Ele adorava aquela parte também.

 

 

 

Nós seguíamos andando e lutando. Aquelas feras de sombra continuavam aparecendo a cada esquina. Normalmente podíamos destruir mortos-vivos canalizando o poder de Manre, o Lorde dos Céus, através de nossos símbolos sagrados. Contudo, alguma coisa naquele templo as fortalecia. Então tínhamos que avançar pela masmorra do jeito difícil.

 

 

Finalmente chegamos ao fim de um corredor onde, ao invés de uma porta, havia uma grande pedra de piso completamente marcada com runas mágicas.

 

 

É um feitiço de teletransporte. – Disse Gellrond, após estuda-la por um minuto. – Mas para onde leva não sabemos.

 

 

Maldição! É outra armadilha! Mas essa eu não vou conseguir desativar! – Reclamou Myra. Ela nos tinha feito passar sãos e salvos por várias outras armadilhas mecânicas naquele dia e estava provavelmente mais cansada que qualquer um de nós.

 

 

Tenho certeza que os Corvos usam essa coisa pra chegar na parte principal do templo deles. Mas pra nós forasteiros… Concordo com ela. – Eu disse.

 

 

Eles provavelmente têm uma senha pra ativar a magia e não jogar ninguém, sei lá, dentro de um vulcão ou coisa do tipo. – Myra atestou.

 

 

Como se para confirmar, Brownie farejou as runas e rosnou.

 

 

Duunar? – Gellrond pediu conselho. O anão manteve os braços cruzados.

 

 

E temos escolha?

 

 

Gellrond suspirou:

 

 

Bom, meus amigos… Não podemos deixar aquela profecia se tornar realidade, podemos?

 

 

“As trevas hão de descer e o sol apagará finalmente? Eu acho que não. – Disse Myra.

 

 

Brownie latiu e subiu na pedra. Eu respirei fundo e o segui. Todos seguimos. Um lampejo cortou o ar, vindo das runas, e me atordoou. No segundo seguinte eu estava caindo e gritando no escuro. Atingi uma porção de água congelante e ouvi a paladina do grupo fazer o mesmo ao meu lado. Graças aos céus foi uma queda curta e não senti nenhum machucado.

 

 

Myra! Você tá bem? – Eu gritei. A água estava na altura do meu tórax.

 

 

Sim, mas… Ei! Maldição! Alguma coisa agarrou meu pé!

 

 

No momento que ela disse isso eu também senti o puxão. Era frio e pesado. Eu pulei de susto e toquei meu pé com a mão. Havia uma corrente negra ao redor do meu tornozelo. Segundos depois, mais água começou a jorrar das paredes.

 

[Continua em breve! Não perca! =D ]

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